Publicação assinada pela Profa. Dra. Masaio Mizuno Ishizuka aborda a expansão do H5N1, as rotas de disseminação entre continentes e os desafios para a vigilância e a biosseguridade da avicultura brasileira.
Poucas profissionais conseguem reunir, com a mesma profundidade, conhecimento acadêmico, experiência em campo e capacidade de transformar dados epidemiológicos em decisões práticas. A Profa. Dra. Masaio Mizuno Ishizuka, professora titular emérita de Epidemiologia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), é uma dessas referências.

Considerada uma das maiores especialistas mundiais em Biosseguridade, a professora construiu uma trajetória marcada pela formação de diferentes gerações de médicos-veterinários e pela aplicação prática da Epidemiologia, da Bioestatística, da Educação Sanitária e da Análise de Risco. Sua atuação também inclui consultorias, cursos de emergência sanitária, investigação de surtos e elaboração de projetos de compartimentação para a avicultura.
Na nova Brochura Técnica DigiVets nº 10, intitulada Cenários da influenza aviária na Antártida em 2024 e 2025 e consequências, a especialista apresenta uma análise abrangente sobre a chegada do vírus da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade H5N1 ao continente antártico e suas implicações ecológicas, sanitárias e produtivas.
Antártida deixa de representar uma barreira natural para o H5N1
A identificação do H5N1 na Antártida representa uma mudança importante na ecologia global da influenza aviária. O vírus, antes associado principalmente a surtos em regiões da Ásia, Europa, África e Américas, demonstrou capacidade de alcançar um dos ambientes mais remotos e historicamente isolados do planeta.
O primeiro isolamento apresentado na brochura ocorreu na Ilha James Ross, em um exemplar de Stercorarius antarcticus, conhecido como skua-marrom. A detecção foi realizada por PCR e sequenciamento genético, que classificaram o agente no clado 2.3.4.4b, relacionado às linhagens que circulavam na América do Sul.

A análise indica que aves marinhas predadoras e necrófagas podem ter participado da introdução do vírus no ambiente antártico. Espécies como skuas, petréis e albatrozes percorrem grandes distâncias oceânicas e conectam áreas do Chile, da Argentina, de ilhas subantárticas e da própria Antártida.
A chegada do H5N1 à região, portanto, não deve ser interpretada como um acontecimento isolado, mas como parte de um processo de disseminação intercontinental sustentado pela movimentação de animais silvestres e pela conexão entre diferentes ecossistemas.
Fauna antártica pode enfrentar risco elevado
A circulação viral na Antártida gera preocupação devido às características próprias do ambiente e das espécies que vivem na região.
Muitas aves antárticas formam colônias reprodutivas densas, nas quais a proximidade entre os animais pode favorecer a transmissão direta e indireta. Soma-se a isso a possível baixa imunidade populacional ao H5N1 e a capacidade de o frio prolongar a viabilidade do vírus fora do hospedeiro.
Entre os animais potencialmente afetados estão pinguins, skuas, petréis, albatrozes e mamíferos marinhos. A matriz analítica apresentada na publicação classifica como muito alta a probabilidade de disseminação envolvendo skuas, enquanto o pinguim-imperador aparece entre as espécies com potencial de impacto ecológico mais grave.
A presença do vírus em um ecossistema sensível também amplia o risco de alterações nas populações animais, nas relações entre predadores e presas e na estrutura das colônias reprodutivas.
O que a chegada do vírus à Antártida significa para o Brasil?
Embora a Antártida esteja geograficamente distante, sua fauna mantém conexões ecológicas com o continente sul-americano. Aves oceânicas podem circular entre a Península Antártica, as ilhas subantárticas, o Chile, a Argentina e o litoral do Atlântico Sul.
Para o Brasil, a publicação chama atenção especialmente para as rotas provenientes do Cone Sul. Nesse cenário, o risco epidemiológico pode estar mais relacionado às aves marinhas e limícolas que utilizam os corredores oceânicos meridionais do que somente às rotas tradicionais oriundas do Hemisfério Norte.
Essas conexões aproximam o risco ambiental das regiões costeiras brasileiras, especialmente no Sul e no Sudeste. Entretanto, a brochura ressalta que isso não representa, isoladamente, risco imediato para os sistemas comerciais. O cenário exige, sobretudo, vigilância permanente, análise de risco e fortalecimento das medidas preventivas.

O material também apresenta um calendário epidemiológico das aves migratórias que chegam ao Brasil. O principal período de entrada ocorre entre setembro e dezembro, com pico em outubro e novembro. A permanência pode se estender até março, enquanto a migração de retorno acontece principalmente entre fevereiro e abril.
Manguezais, estuários, ilhas costeiras, áreas portuárias e regiões lagunares estão entre os ambientes considerados prioritários para o monitoramento.
Vigilância oficial deve ser complementada por ações no campo
A publicação também revisita a confirmação do primeiro foco de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade H5N1 em uma granja comercial brasileira, registrada em maio de 2025, em Montenegro, no Rio Grande do Sul. O documento analisa os aprendizados decorrentes desse episódio e a ausência de novos registros no segundo semestre daquele ano.
Entre os pontos destacados está a importância das aves de subsistência, de fundo de quintal e mantidas em sistemas free-range como sentinelas epidemiológicas. Por apresentarem maior exposição ao ambiente e, frequentemente, menos barreiras sanitárias, essas populações podem indicar precocemente a circulação de agentes provenientes da fauna silvestre.
A vigilância oficial é indispensável, mas não substitui os sistemas internos das empresas, cooperativas e propriedades. Entre as recomendações estão:
- monitoramento de mortalidade e alterações clínicas;
- comunicação e investigação imediata de suspeitas;
- acompanhamento de aves de subsistência próximas às granjas;
- auditorias periódicas das barreiras sanitárias;
- análise anual do risco associado às rotas migratórias;
- integração entre vigilância avícola, ambiental e de fauna silvestre.
A ausência de detecção não deve ser confundida com prova definitiva de ausência de circulação viral. Por isso, prevenção e vigilância precisam funcionar continuamente, mesmo nos períodos considerados epidemiologicamente mais favoráveis.
Biosseguridade depende de estrutura, processos e comportamento
Um dos principais pontos defendidos pela Profa. Masaio é que a biosseguridade não pode ser tratada apenas como um conjunto de equipamentos, barreiras ou documentos.
Controle de acesso, proteção da água e da ração, separação entre fluxos limpos e sujos, higienização adequada, manejo de resíduos e destinação sanitária de carcaças são medidas fundamentais. Entretanto, a efetividade dessas ações depende do comportamento humano e da disciplina operacional.
A publicação destaca que grande parte das falhas não ocorre por falta de conhecimento técnico, mas por problemas como treinamento insuficiente, comunicação inadequada, execução incompleta dos protocolos e ausência de uma cultura sanitária consolidada.
Nesse contexto, a Qualidade Total na Biosseguridade (QTB) transforma a prevenção em um processo permanente, baseado na medição de indicadores, padronização de atividades, investigação das causas das falhas, correções imediatas e melhoria contínua.
Conhecimento para antecipar os próximos cenários sanitários
Além da chegada do H5N1 à Antártida, a Brochura Técnica DigiVets nº 10 aborda a cronologia da expansão global do vírus, os riscos para a fauna, o calendário das aves migratórias, a situação epidemiológica brasileira, as limitações dos sistemas de vigilância e a responsabilidade humana na disseminação e no controle da influenza aviária.
Com textos técnicos, matrizes de risco, análises estratégicas e infográficos, a publicação oferece informações para médicos-veterinários, responsáveis técnicos, consultores, produtores, cooperativas, pesquisadores e profissionais envolvidos com avicultura, vigilância epidemiológica e biosseguridade.
A principal mensagem é clara: diante de um vírus altamente adaptável e capaz de atravessar fronteiras ecológicas, a melhor resposta não é esperar o surgimento de um novo foco. É antecipar riscos, fortalecer a vigilância e transformar a biosseguridade em parte permanente da gestão sanitária.
Acesse e baixe gratuitamente a Brochura Técnica DigiVets nº 10: Cenários da influenza aviária na Antártida em 2024 e 2025 e consequências.
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