Artigo técnico disponível no DigiVets discute a relação entre eubióticos, saúde intestinal, uso responsável de antimicrobianos e Saúde Única, com análise das implicações para os sistemas produtivos.
Reduzir a necessidade de antimicrobianos na produção animal exige conhecer as condições que favorecem o adoecimento e comprometem o desempenho dos animais. A retirada de um aditivo melhorador de desempenho, por exemplo, precisa ser acompanhada de uma avaliação do manejo, da alimentação e dos desafios sanitários de cada criação. A busca por outro produto capaz de ocupar a mesma função pode deixar essas condições em segundo plano, embora sejam determinantes para a saúde intestinal e para a demanda por tratamentos.
As exigências de consumidores, empresas de alimentos e mercados importadores acrescentam pressão a esse processo. O uso responsável de medicamentos passou a integrar critérios de qualidade e compromissos assumidos pelas cadeias produtivas, ao lado do bem-estar animal e da sustentabilidade. O primeiro artigo da série desenvolvida pelo DigiVets em parceria com a AgriBR examina essas relações e discute por que os eubióticos ganharam espaço entre as estratégias voltadas à saúde intestinal e à redução da necessidade de antimicrobianos.
A circulação da resistência amplia a responsabilidade sanitária
A exposição aos antimicrobianos exerce pressão seletiva sobre as populações bacterianas: microrganismos suscetíveis podem ser eliminados, enquanto aqueles capazes de resistir ao medicamento sobrevivem e se multiplicam. O uso excessivo ou inadequado pode intensificar esse processo e comprometer a eficácia dos tratamentos. Bactérias resistentes e genes associados à resistência podem circular entre animais, pessoas, alimentos e ambientes compartilhados, fazendo com que as consequências de uma intervenção sanitária se estendam para além da propriedade onde o medicamento foi empregado.
Resíduos de antimicrobianos podem alcançar o ambiente por meio de fezes, urina e efluentes. Bactérias resistentes e genes de resistência também podem estar presentes no esterco e se disseminar pelo solo e pela água, que participam de sua circulação e podem favorecer novas exposições. Essa relação fundamenta a abordagem de Saúde Única, ou One Health, que considera a interdependência entre a saúde humana, animal e dos ecossistemas. Na produção, ela amplia a avaliação das práticas sanitárias para incluir o destino dos resíduos e seus possíveis efeitos ambientais, além dos resultados observados nos animais.
As exigências do mercado alcançam a rotina das propriedades
Preço, sabor e qualidade nutricional continuam relevantes para a escolha dos alimentos, mas parte dos consumidores também considera as condições em que carne, leite e ovos são produzidos. Bem-estar animal, rastreabilidade e uso responsável de medicamentos passam a compor essa avaliação. As empresas incorporam essas expectativas a compromissos de fornecimento e protocolos de produção, que chegam às propriedades na forma de requisitos de manejo e controle sanitário. Para os produtores, atender a essas demandas envolve demonstrar como as práticas adotadas contribuem para a qualidade do alimento e a saúde dos animais.
A comunicação sobre o tema precisa distinguir resistência antimicrobiana de resíduos de medicamentos nos alimentos. A resistência diz respeito à capacidade de microrganismos sobreviverem à ação dos antimicrobianos; os resíduos correspondem à presença de substâncias provenientes dos medicamentos e são objeto de limites e períodos de carência. O cumprimento das regras de utilização protege o consumidor, mas o enfrentamento da resistência exige considerar também a pressão seletiva e a circulação de bactérias resistentes ao longo da cadeia produtiva.
A regulação acrescenta obrigações a esse movimento. No Brasil, a Portaria SDA/MAPA nº 1.617, de 24 de abril de 2026, proibiu a importação, fabricação, comercialização e utilização de aditivos melhoradores de desempenho contendo os antimicrobianos listados em seu anexo e determinou o cancelamento dos registros correspondentes. A aplicação da norma prevê regras de transição para estoques existentes, detalhadas em esclarecimentos do MAPA. A restrição a essa finalidade de uso reforça a necessidade de avaliar estratégias para preservar o desempenho e a saúde dos animais.
A prevenção como base para reduzir a necessidade de tratamentos
Uma redução sustentada da necessidade de antimicrobianos depende do controle das condições que favorecem as doenças. Biosseguridade, vacinação e manejo adequado ajudam a reduzir os desafios sanitários, enquanto diagnóstico e acompanhamento veterinário orientam as intervenções necessárias. Essa abordagem preserva o lugar do tratamento quando há indicação clínica. Deixar de tratar animais doentes pode comprometer seu bem-estar e a sanidade do sistema, razão pela qual a redução do consumo de medicamentos precisa ser avaliada em conjunto com os resultados de saúde e produção.
A iniciativa RENOFARM, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), adota a redução da necessidade de antimicrobianos nas propriedades como objetivo. A iniciativa associa boas práticas de produção à prevenção e ao uso prudente dos medicamentos. Nesse trabalho, nutrição e saúde intestinal ajudam a compor as condições para que os animais enfrentem os desafios do ambiente produtivo, com atenção à microbiota e à integridade do intestino.
Eubióticos precisam ser avaliados nas condições de cada sistema
O termo eubiótico reúne intervenções associadas à promoção de um equilíbrio microbiano favorável e à saúde intestinal, embora sua definição e as categorias incluídas possam variar na literatura. Probióticos, prebióticos, posbióticos, ácidos orgânicos e fitogênicos estão entre as tecnologias discutidas nesse contexto. Seus mecanismos de ação são distintos e podem envolver efeitos sobre a microbiota, a digestibilidade, a integridade intestinal e a resposta imune. Essa diversidade exige compreender o objetivo de cada intervenção e sua relação com os desafios presentes na criação.
Os resultados dependem da espécie, da idade, da dieta, do manejo e das condições sanitárias, além da tecnologia utilizada. Uma resposta observada em determinadas condições pode não se repetir em outro sistema produtivo. Por isso, a avaliação dos eubióticos deve considerar a consistência dos resultados, os efeitos sobre a microbiota e a compatibilidade com as demais medidas preventivas. Sua incorporação à alimentação integra o trabalho de manutenção da saúde intestinal; o tratamento de infecções continua dependente da avaliação veterinária e da indicação terapêutica apropriada.
Por isso, a equipe de médicos-veterinários do DigiVets desenvolveu um artigo de revisão, em parceria com a AgriBR, para aprofundar a discussão sobre a redução da necessidade de antimicrobianos e o papel dos eubióticos na produção animal. O material aborda a relação entre saúde intestinal, prevenção de doenças e eficiência produtiva, considerando também a preservação das opções terapêuticas e os possíveis impactos ambientais. Sob a perspectiva da Saúde Única, a revisão discute como esses fatores se relacionam às exigências de mercado e às mudanças nas práticas de produção.
Aprofundamento técnico disponível no DigiVets
O DigiVets disponibiliza o artigo técnico “Da resistência antimicrobiana aos eubióticos: pressões de mercado e a transformação da produção animal sob a perspectiva One Health”. O material desenvolve a discussão sobre as exigências sanitárias e de mercado, o manejo da microbiota e o papel da prevenção na produção de proteína animal. A versão em PDF reúne a análise completa e as referências utilizadas, permitindo ao leitor aprofundar os fundamentos apresentados e consultar a literatura que sustenta a discussão sobre eubióticos e Saúde Única.

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