Psicóloga Natália Nigro de Sá fala ao DigiVets sobre luto não reconhecido, comunicação de más notícias, eutanásia e o papel do médico-veterinário diante da perda de um paciente.
Quando o prontuário é encerrado, o cuidado também termina?
Para a Medicina Veterinária, a morte de um paciente pode representar o fim de uma longa sequência de consultas, exames, internações e decisões clínicas. Para a família que volta para casa sem aquele animal, porém, é justamente ali que começa outra experiência: reorganizar uma rotina construída em torno de uma presença que deixou de existir.
O pet que acordava junto, esperava na porta, acompanhava refeições, passeios, mudanças de casa, relacionamentos e diferentes fases da vida já não ocupa apenas o espaço físico de um animal de estimação. É parte de uma história familiar. E quando esse vínculo é rompido, a dor nem sempre encontra a mesma legitimidade social oferecida a outras perdas.
É nesse território, entre o vínculo, a finitude e aquilo que acontece depois da morte, que trabalha a psicóloga clínica Natália Nigro de Sá. Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), sua trajetória profissional e acadêmica antecede o debate atual sobre luto pet e revela uma relação antiga com temas como perdas, família, cuidado e processos de luto.
Em entrevista ao DigiVets, Natália chama atenção para um ponto que ainda desafia clínicas, hospitais e profissionais: a responsabilidade veterinária com uma família não necessariamente desaparece quando já não há possibilidade de cura. “A morte não deveria ser tratada como o momento em que o cuidado termina, mas como uma etapa em que o modo de cuidar precisa mudar”, afirma.
Uma trajetória marcada pelo estudo da finitude
Antes de chegar à Psicologia, Natália se formou em Comunicação Social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em 2008. Alguns anos depois, iniciou a graduação em Psicologia, concluída em 2014, e seguiu para o doutorado na USP, finalizado em 2019. Sua trajetória acadêmica inclui ainda a participação no Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Perdas e Luto (NIPPEL), ligado à Escola de Enfermagem da universidade.

A finitude já aparecia como objeto de interesse antes mesmo da atuação voltada à perda de animais. Na graduação em Psicologia, seu trabalho de conclusão recebeu o título “A escuta poética do analista diante da finitude humana”. Mais tarde, sua pesquisa de doutorado se voltou às relações familiares e à experiência de ressignificação de crenças no acolhimento de identidades trans, mantendo a família, os vínculos e diferentes formas de perda entre os eixos que atravessaram sua formação.
Esse percurso ajuda a entender por que, para Natália, falar sobre a morte de um animal não significa discutir apenas o momento da despedida. Significa olhar para a relação que existia antes dela. E essa relação mudou de lugar dentro das famílias.
De “animal de estimação” a membro da família
Em abril de 2026, a própria legislação brasileira deu mais um sinal dessa transformação. A Lei nº 15.392 passou a disciplinar a custódia compartilhada de animais de estimação em casos de dissolução de casamento ou união estável, estabelecendo regras para convivência e divisão de despesas quando não houver acordo entre as partes.
Para Natália, esse reconhecimento acompanha uma mudança que já vinha acontecendo dentro das casas: animais passaram a ocupar um lugar cada vez mais central na organização afetiva e cotidiana das famílias. A consequência também aparece quando eles morrem.
“Muitas vezes, o pet é uma importante referência de companhia, segurança, afeto e regulação emocional. Sua morte não representa apenas uma ausência física, mas também a perda de uma rotina, de um papel de cuidado e de uma forma muito particular de vínculo”, explica.

É justamente nesse ponto que surge o chamado luto não reconhecido. Por que frases aparentemente simples, como “era só um animal”, “você pode adotar outro” ou “pelo menos não foi uma pessoa”, podem ser tão dolorosas? Porque elas estabelecem uma espécie de hierarquia do sofrimento. Para quem perdeu, o resultado pode ser a sensação de que aquela dor é excessiva, inadequada ou até constrangedora.
Existe, segundo a psicóloga, uma contradição difícil de ignorar: aceita-se que cães e gatos sejam tratados como membros da família enquanto estão vivos, mas nem sempre se reconhece que sua morte possa provocar um processo de luto igualmente significativo. “A intensidade do luto não é determinada pela espécie, mas pelo lugar que aquele vínculo ocupa na vida da pessoa”, resume.
Da experiência com o luto nasceu a LAIKA
A aproximação entre a trajetória profissional de Natália e o universo pet ganhou uma dimensão prática em 2024, quando ela participou da criação da LAIKA Assistência e Funeral Pet.
Segundo a história apresentada pela própria empresa, a iniciativa nasceu em junho daquele ano a partir da experiência de duas mulheres com a perda de animais e da percepção de que ainda havia uma lacuna no acolhimento oferecido às famílias no momento da morte. A experiência pessoal se encontrou, no caso de Natália, com mais de uma década de atuação e estudo relacionados a perdas e luto.
Mais do que colocar a empresa no centro dessa história, sua criação ajuda a evidenciar uma mudança mais ampla no mercado pet: à medida que o cuidado veterinário se torna mais sofisticado e os animais vivem por mais tempo, também cresce a necessidade de discutir aquilo que acontece quando tratar já não significa curar. E essa conversa pode começar antes da morte.
O luto pode começar enquanto o paciente ainda está vivo
Um diagnóstico de câncer avançado. Uma doença degenerativa. A perda progressiva da mobilidade. O animal que já não demonstra o mesmo interesse pela comida ou pelas atividades que antes faziam parte de sua rotina. Nessas situações, a família pode começar a viver uma experiência de perda mesmo enquanto o animal ainda está presente.
É o chamado luto antecipatório. Como ele aparece na rotina? Segundo Natália, pode surgir na forma de ansiedade intensa, hipervigilância, medo constante de piora, dificuldade para tomar decisões e necessidade de fazer repetidamente as mesmas perguntas à equipe.

O médico-veterinário não precisa — e não deve — transformar a consulta em psicoterapia. Mas pode reconhecer o que está acontecendo. Perguntas como “o que mais preocupa você neste momento?” ou “o que seria qualidade de vida para ele e para a família?” ajudam a revelar valores e preocupações que uma avaliação exclusivamente clínica nem sempre alcança.
Quando o sofrimento emocional é intenso, cabe ao veterinário reconhecer seus próprios limites e facilitar o acesso a profissionais preparados para oferecer acompanhamento psicológico.
Comunicar a verdade também é uma conduta clínica
Poucos momentos deixam essa responsabilidade tão evidente quanto a comunicação de um diagnóstico grave ou de um prognóstico ruim. Como transmitir uma informação difícil sem aumentar o sofrimento de quem a recebe? A informação pode estar tecnicamente correta e, ainda assim, ser mal comunicada.
Para Natália, uma comunicação realmente empática considera não apenas o que precisa ser dito, mas a capacidade daquela pessoa de receber e processar a informação naquele momento. Isso passa por oferecer privacidade, evitar jargões, dividir informações complexas em partes, permitir pausas e verificar o que de fato foi compreendido.
“Empatia não significa esconder a gravidade nem oferecer uma esperança falsa”, ressalta. O desafio é sustentar a verdade sem abandonar quem a recebe.
Isso também significa evitar respostas automáticas ao sofrimento. Expressões como “foi melhor assim”, “ele já estava velhinho”, “não chore” ou “depois você adota outro” podem surgir como tentativas genuínas de consolo, mas acabam fechando o espaço para que a família expresse a própria dor. Às vezes, segundo a psicóloga, uma das melhores intervenções disponíveis é simplesmente permanecer presente e escutar.
Eutanásia: quando “a decisão é sua” não basta
Entre todas as conversas difíceis da prática veterinária, poucas carregam tanto peso quanto a indicação de eutanásia. Por que essa decisão pode continuar provocando culpa mesmo quando é tomada para interromper o sofrimento? Para muitas famílias, a escolha é seguida por perguntas que podem permanecer por meses ou anos: foi cedo demais? Esperei demais? Havia outra alternativa?
É justamente por isso que Natália alerta para o risco de transferir toda a responsabilidade moral para o responsável pelo animal. Dizer apenas “a decisão é sua” pode parecer uma forma de respeitar a autonomia da família, mas deixa sobre ela um peso técnico que pertence também ao profissional.

O médico-veterinário deve apresentar sua avaliação clínica, explicar quais sinais demonstram sofrimento, quais possibilidades terapêuticas ainda existem, o que pode acontecer com a evolução da doença e, quando indicado, apresentar claramente sua recomendação.
A construção da decisão pode ainda ser apoiada por avaliações seriadas de qualidade de vida e por critérios definidos previamente com a família. Antes da eutanásia, explicar cada etapa do procedimento e possíveis reações físicas também reduz medo e incerteza.
Quem cuida também perde
Existe ainda outro luto frequentemente esquecido nessa relação: o do próprio médico-veterinário. O que acontece com o profissional que acompanha um paciente por anos e precisa participar de sua despedida?
Alguns pacientes são acompanhados por longos períodos. O profissional conhece sua evolução, estabelece vínculo com a família, participa de momentos de melhora e recaída e, muitas vezes, está presente no instante da morte. A exposição repetida ao sofrimento, somada à sobrecarga, conflitos éticos e sensação de responsabilidade, cobra um preço.

Para Natália, a resposta não deve ser ensinar veterinários a criar distância emocional. “O objetivo não deve ser ensinar o profissional a sentir menos, mas ajudá-lo a não carregar sozinho tudo o que sente.”
Um estudo com 549 médicos-veterinários brasileiros reforça a dimensão do problema. A pesquisa mostrou que 91% dos participantes não haviam recebido, durante a graduação, treinamento para lidar com o luto. Entre aqueles que tiveram algum tipo de preparação, o impacto emocional provocado pela perda de pacientes foi menor.
Por isso, comunicação de más notícias não deveria ser tratada como uma habilidade acessória ou aprendida apenas pela experiência. Para Natália, ela é uma competência clínica. Isso significa ensinar protocolos, realizar simulações, discutir casos, treinar escuta e preparar futuros profissionais para situações envolvendo conflito, morte e eutanásia — temas tão presentes na rotina veterinária quanto diagnóstico e tratamento.
Depois da morte, pequenos gestos também importam
O que uma clínica pode fazer depois que um paciente morre? Não é necessário criar uma estrutura complexa para mudar a maneira como as famílias enlutadas são acolhidas. Uma mensagem personalizada, uma ligação breve, uma carta assinada pela equipe ou informações sobre redes de apoio podem fazer diferença.
Até mesmo uma mudança administrativa pode evitar uma nova ferida: registrar adequadamente a morte do paciente no sistema para que a família não receba, semanas depois, um lembrete automático de vacinação, aniversário ou uma mensagem comercial dirigida a um animal que já morreu.
Para Natália, o ideal seria que clínicas e hospitais adotassem protocolos de cuidados de fim de vida e pós-morte. Eles começariam ainda antes da despedida, com conversas sobre prognóstico, cuidados paliativos, qualidade de vida e tomada de decisão compartilhada, e continuariam depois dela, com privacidade, orientação à família e manejo respeitoso do corpo.
Durante décadas, grande parte da formação em saúde foi construída em torno de uma missão quase absoluta: evitar a morte. Mas todo profissional que acompanha pacientes ao longo da vida encontra, cedo ou tarde, um limite que nenhum tratamento consegue ultrapassar.
É justamente nesse limite que outra competência passa a importar. Saber permanecer. Porque, quando não é mais possível curar e o paciente morre, ainda existe uma família diante do médico-veterinário. E a maneira como essa despedida é conduzida também fará parte da história daquele animal.
Para ficar por dentro de todas as novidades do mundo veterinário leia nossos outros artigos em:
Digivets
Quer uma curadoria de conteúdo no seu email?
Assine nossa News no LinkedIn Newsletter Digivets









