Por Digivets

Setembro 9, 2026

Em 9 de setembro, o Brasil celebra uma profissão que está presente muito além das clínicas e hospitais veterinários. Da segurança dos alimentos ao controle de zoonoses, da produção animal ao vínculo cada vez mais próximo entre pessoas e seus pets, o médico-veterinário tornou-se um dos profissionais estratégicos para uma sociedade que precisa conciliar saúde, produção de alimentos, bem-estar animal e sustentabilidade. O dia do médico-veterinário.

Em 9 de setembro, o Brasil celebra uma profissão que está presente muito além das clínicas e hospitais veterinários. Da segurança dos alimentos ao controle de zoonoses, da produção animal ao vínculo cada vez mais próximo entre pessoas e seus pets, o médico-veterinário tornou-se um dos profissionais estratégicos para uma sociedade que precisa conciliar saúde, produção de alimentos, bem-estar animal e sustentabilidade.

Neste 9 de setembro, Dia do Médico-Veterinário, o Digivets começa esta matéria com aquilo que realmente mais importa: parabéns a todos os médicos-veterinários brasileiros.

Mas talvez a melhor maneira de homenagear esses profissionais seja compreender a dimensão que a Medicina Veterinária alcançou no Brasil — e reconhecer também os desafios enfrentados por quem escolheu exercê-la.

Segundo o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), o Brasil já ultrapassou a marca de 215 mil médicos-veterinários em atividade. São profissionais distribuídos por clínicas, hospitais, propriedades rurais, laboratórios, universidades, indústrias, órgãos públicos, serviços de inspeção, centros de pesquisa e muitas outras áreas.

É uma presença muito maior do que aquela percebida pela maioria da população.

O médico-veterinário está, evidentemente, no consultório onde um cão ou um gato recebe atendimento. Mas também está na produção do leite que chega ao café da manhã, na sanidade dos rebanhos, no controle das zoonoses, na inspeção de carnes, ovos, leite e pescado, na vigilância epidemiológica, na pesquisa científica e no desenvolvimento de tecnologias para a produção animal.

Em outras palavras, a Medicina Veterinária cuida dos animais, mas seus efeitos chegam diretamente à saúde e à vida das pessoas.

Uma das profissões centrais para a Saúde Única

Poucos conceitos traduzem tão bem essa amplitude quanto o de Saúde Única — ou One Health.

A abordagem parte de uma constatação relativamente simples: saúde humana, saúde animal e saúde ambiental não podem mais ser tratadas como universos independentes.

Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde com base em dados da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), cerca de 60% dos patógenos responsáveis por doenças humanas têm origem animal e aproximadamente 75% das doenças infecciosas emergentes humanas são de origem animal.

A prevenção de zoonoses, a vigilância epidemiológica, o controle da resistência aos antimicrobianos, a segurança dos alimentos e o acompanhamento das mudanças ambientais passam, portanto, necessariamente pela integração entre diferentes áreas do conhecimento.

E o médico-veterinário ocupa uma posição privilegiada nessa interface.

O próprio CFMV define Saúde Única como uma visão que conecta as saúdes humana, animal e ambiental e destaca a participação dos médicos-veterinários na sustentabilidade, na produção animal e na prevenção de ameaças sanitárias.

Essa importância tende a aumentar.

Mudanças climáticas, intensificação das cadeias globais de alimentos, movimentação internacional de pessoas e animais, doenças emergentes e resistência antimicrobiana estão tornando as fronteiras entre saúde animal e humana cada vez menos nítidas.

Nesse cenário, a Medicina Veterinária deixa definitivamente de ser entendida apenas como uma profissão dedicada à saúde dos animais para assumir seu lugar como uma das profissões estratégicas da saúde pública.

Sem Medicina Veterinária, não existe potência agropecuária

Essa importância é particularmente evidente no Brasil.

Um dos maiores produtores e exportadores mundiais de proteína animal só consegue manter mercados internacionais quando consegue demonstrar sanidade dos rebanhos, biossegurança, rastreabilidade e segurança dos produtos que comercializa.

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a exportação de animais e produtos de origem animal depende do cumprimento de requisitos sanitários, inspeção oficial e certificação. O Serviço de Inspeção Federal (SIF) integra esse sistema de garantia sanitária que permite que produtos brasileiros cheguem aos mercados internacionais.

Por trás dessa estrutura há, novamente, médicos-veterinários.

São eles que atuam na prevenção e controle de enfermidades, biossegurança, diagnóstico, epidemiologia, inspeção de produtos de origem animal, bem-estar animal, pesquisa, desenvolvimento de tecnologias e assistência técnica aos sistemas produtivos.

E a missão está mudando.

O desafio do futuro não será simplesmente produzir mais proteína animal.

Será produzir mais e melhor, com menor impacto ambiental, maior eficiência no uso de recursos, redução da pressão de doenças, uso responsável de antimicrobianos e níveis crescentes de bem-estar animal.

A Medicina Veterinária estará no centro dessa transformação.

E os animais de companhia deixaram de ser apenas “animais de estimação”

Ao mesmo tempo em que aumenta sua importância para a produção de alimentos e para a saúde pública, outra transformação ocorre dentro das casas brasileiras.

Cães e gatos passaram a ocupar um espaço afetivo cada vez mais próximo daquele reservado aos membros da família.

A expressão “família multiespécie” deixou de pertencer apenas às discussões acadêmicas e jurídicas. Ela descreve uma realidade facilmente observável em milhões de lares.

E essa transformação também está mudando a Medicina Veterinária.

Quando um animal passa a ser percebido como integrante da família, mudam as expectativas em relação à sua saúde.

Consultas preventivas, vacinação, diagnóstico por imagem, exames laboratoriais, odontologia, cardiologia, dermatologia, oncologia, neurologia, fisioterapia, nutrição e cuidados geriátricos passam a fazer parte de uma Medicina Veterinária cada vez mais sofisticada.

Animais vivem mais. Seus tutores demandam diagnósticos mais precisos e tratamentos mais avançados. Hospitais veterinários incorporam tecnologias que há poucas décadas seriam encontradas quase exclusivamente na Medicina Humana.

O resultado é um paradoxo interessante.

Nunca a sociedade demandou tanto conhecimento do médico-veterinário.

Mas isso não significa que exercer a profissão tenha se tornado mais fácil.

Uma profissão essencial que também precisa ser cuidada

Comemorar o Dia do Médico-Veterinário também exige falar sobre os problemas da profissão.

E talvez o primeiro deles esteja justamente onde tudo começa: na formação.

Em diagnóstico apresentado em 2025, o CFMV contabilizou 580 cursos presenciais de Medicina Veterinária autorizados no Brasil e aproximadamente 87,4 mil vagas anuais. O Conselho classificou a expansão como acelerada e chamou atenção para a heterogeneidade da qualidade da formação.

Em outra manifestação, o CFMV afirmou que o Brasil possui mais de 500 cursos ativos de Medicina Veterinária, o maior número do mundo, e solicitou ao Ministério da Educação a criação de mecanismos nacionais de avaliação da formação dos estudantes.

O problema, portanto, não é simplesmente formar muitos veterinários.

É formar profissionais em quantidade incompatível com a capacidade de oferecer ensino prático de qualidade e permitir que ingressem no mercado adequadamente preparados para uma profissão da área da saúde.

O efeito dessa expansão aparece também no mercado de trabalho.

Maior competição por vagas, pressão sobre remunerações, jornadas extensas, plantões e dificuldade de equilibrar vida profissional e pessoal compõem uma realidade experimentada por parte importante da categoria. A própria discussão sobre valorização profissional permanece aberta: em 2026, o CFMV voltou a defender no Congresso Nacional a criação de um piso salarial nacional para médicos-veterinários e zootecnistas.

Mas existe uma consequência ainda mais delicada.

Precisamos falar sobre a saúde mental de quem cuida

O desgaste emocional da Medicina Veterinária vem ganhando atenção crescente em todo o mundo.

Na clínica, o profissional convive diariamente com sofrimento, morte, eutanásia, limitações financeiras dos tutores, conflitos de relacionamento e decisões difíceis. Somam-se a isso jornadas extensas, pressão por resultados e a necessidade permanente de equilibrar envolvimento emocional e tomada de decisão técnica.

Um estudo brasileiro publicado pela Revista CFMV avaliou 360 médicos-veterinários clínicos de Minas Gerais. Entre os participantes, 68,33% apresentaram insatisfação profissional, 74,17% disseram que não recomendariam a Medicina Veterinária e impressionantes 87,78% afirmaram já ter considerado deixar a profissão.

São números que merecem atenção.

A literatura científica internacional também aponta maior vulnerabilidade dos médicos-veterinários a sofrimento psicológico, depressão, burnout e ideação suicida. Uma revisão publicada em 2023 identificou fatores recorrentes como sobrecarga de trabalho, dificuldades financeiras, conflitos interpessoais, eutanásia e acesso a meios letais.

Nos Estados Unidos, estudo divulgado pelo CDC encontrou risco de morte por suicídio superior ao da população geral entre médicos-veterinários.

É importante, porém, tratar o tema com precisão. Não existem evidências brasileiras suficientemente consistentes para sustentar afirmações frequentemente repetidas de que a Medicina Veterinária seria “a profissão com maior taxa de suicídio”. O próprio CFMV já alertou para a necessidade de evitar esse tipo de generalização.

Isso não diminui o problema.

Ao contrário.

Mostra que precisamos de mais dados, mais pesquisa, melhores condições de trabalho e estruturas permanentes de apoio à saúde mental dos profissionais.

Há razões para olhar para o futuro com otimismo

Reconhecer esses desafios não significa desenhar um futuro pessimista para a Medicina Veterinária.

Talvez seja exatamente o contrário.

Poucas profissões estão posicionadas na intersecção de tantas transformações importantes.

A Saúde Única ganhou relevância mundial. A segurança dos alimentos tornou-se questão estratégica. A resistência antimicrobiana exige novas formas de prevenção e controle de doenças. A produção animal precisa se tornar cada vez mais eficiente e sustentável. O Brasil continuará dependendo de excelência sanitária para acessar mercados internacionais.

Ao mesmo tempo, a relação entre pessoas e animais de companhia está aumentando a demanda por uma Medicina Veterinária mais preventiva, especializada e tecnologicamente avançada.

Novas oportunidades surgem em áreas como diagnóstico molecular, epidemiologia, ciência de dados, biotecnologia, reprodução, nutrição, comportamento, especialidades clínicas, saúde pública, inspeção, gestão, pesquisa e desenvolvimento.

E a própria profissão começa a discutir com maior intensidade questões que durante muito tempo permaneceram em segundo plano: qualidade da formação, valorização profissional, remuneração, saúde mental e condições de trabalho.

Talvez esteja justamente aí a principal mensagem deste 9 de setembro.

O futuro da Medicina Veterinária não depende apenas de formar mais médicos-veterinários. Depende de formar profissionais melhores, valorizá-los adequadamente e permitir que exerçam todo o potencial de uma profissão que se tornou indispensável para a sociedade.

Porque quando um médico-veterinário cuida de um animal, ele está fazendo Medicina Veterinária.

Quando ajuda a evitar que uma zoonose alcance seres humanos, também.

Quando garante que um alimento seja seguro, também.

Quando protege um rebanho, melhora o bem-estar animal, ajuda uma propriedade a produzir de maneira mais sustentável ou contribui para que um produto brasileiro seja aceito em outro país, também.

E quando utiliza ciência, tecnologia e conhecimento para tornar mais saudável a convivência entre pessoas, animais e ambiente, talvez esteja realizando a expressão mais completa da profissão.

Neste Dia do Médico-Veterinário, o Digivets deixa seu reconhecimento aos mais de 215 mil profissionais que exercem essa missão no Brasil.Parabéns, médicos-veterinários. O futuro da saúde animal é de vocês. Mas uma parte importante do futuro da saúde humana, dos alimentos e do planeta também é.

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