Companhia familiar consolida sua presença no mercado pet e projeta os próximos anos com uma nova fábrica, inovação nutricional e investimentos que alcançam pessoas, animais e comunidades

Foto: Divulgação/Special Dog Company
Não havia o distanciamento típico de uma apresentação corporativa. Em vez de uma sucessão de discursos formais, a Special Dog Company escolheu reunir jornalistas e convidados em um petit comité, com o jantar servido ao longo de uma conversa sobre memória, negócios, ciência e futuro.
Era o primeiro evento da empresa naquele formato. A proposta, explicou a diretora administrativa Priscila Manfrim Tavares, era estreitar relações e apresentar a companhia para além dos números. “Tudo o que a gente faz, a gente faz com muito carinho, com muita dedicação e muita responsabilidade”, afirmou ao receber os convidados. Em tom descontraído, ela também lembrou que, embora o aniversário tenha ocorrido em fevereiro, a programação transformou 2026 em “um ano inteiro de aniversário”.
No palco, três perspectivas ajudaram a contar essa trajetória. Priscila apresentou a evolução empresarial e os planos de expansão. João Paulo Figueira, gerente de Desenvolvimento Sustentável, abordou a integração entre prosperidade, responsabilidade e geração de valor. Mariana Monti, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento, mostrou como a busca pelo rigor científico, a escuta dos responsáveis pelos pets e a inovação nutricional estão orientando os próximos lançamentos da companhia.
Uma história que cresceu junto com o mercado pet
Fundada em 2001, em Santa Cruz do Rio Pardo, no interior paulista, a Special Dog Company acompanhou um dos períodos de maior transformação do mercado pet brasileiro. O animal que permanecia do lado de fora da casa passou a ocupar a cama, a rotina e o orçamento familiar. A alimentação deixou de ser vista apenas como manutenção e tornou-se parte das decisões relacionadas à prevenção, longevidade e qualidade de vida.
De acordo com os dados apresentados no encontro, o segmento brasileiro de pet food movimentou aproximadamente R$ 41 bilhões em 2025. O Brasil aparece como o terceiro maior mercado mundial da categoria, em um cenário nacional com mais de 170 fabricantes. Foi nesse ambiente competitivo que a Special Dog se consolidou entre as três maiores indústrias brasileiras do setor.
A companhia encerrou 2025 com faturamento de R$ 2,15 bilhões, cerca de 2 mil colaboradores, presença em mais de 40 mil pontos de venda e exportações para mais de dez países. Sua atuação está especialmente consolidada nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, mantendo espaço para ampliar a capilaridade em outras áreas do território nacional.
“Chegar aos 25 anos entre as principais empresas do mercado pet brasileiro é o reflexo de uma construção coletiva”, resume Priscila. Segundo a diretora, as decisões tomadas ao longo desse percurso foram guiadas pela qualidade dos produtos e pelo cuidado com pessoas e animais.
Essa construção começou com dois produtos e hoje ultrapassa uma centena de itens, distribuídos entre alimentos secos, úmidos, biscoitos e snacks nas categorias premium, premium especial e super premium natural. A estrutura produtiva de Santa Cruz do Rio Pardo reúne seis fábricas e capacidade próxima de 26 mil toneladas por mês. A operação de alimentos úmidos, inaugurada em 2019, passou de 300 para aproximadamente 700 toneladas mensais, enquanto a primeira fábrica própria de biscoitos recebeu investimento de cerca de R$ 30 milhões.
A escala também se sustenta fora das linhas de produção. A empresa opera uma estrutura logística própria, com mais de 300 veículos e quatro centros de distribuição. Ao assumir diretamente a chegada do produto ao varejo, mantém contato contínuo com pet shops, casas agropecuárias, clínicas veterinárias, redes especializadas e supermercados.
Crescer sem abandonar a essência familiar
A presença da segunda geração na gestão foi um dos pontos centrais da celebração. Priscila integra a família fundadora e está na empresa há nove anos. Ao lado de outros familiares e executivos que construíram suas carreiras dentro da organização, ela representa uma transição que busca preservar a origem familiar sem abrir mão da profissionalização.
A Special Dog mantém ciclos de planejamento estratégico desde 2010, com diretrizes revistas a cada cinco anos. Governança, inovação, pessoas, qualidade e eficiência operacional passaram a organizar uma empresa que cresceu, mas optou por conservar a proximidade nas relações como parte de seu modelo de negócios.

Essa cultura aparece também nas iniciativas direcionadas ao público interno. Em 2025, o Núcleo Social realizou 2.872 atendimentos socioassistenciais, alcançando 1.344 colaboradores em situações de vulnerabilidade. Foram registrados ainda 211 atendimentos relacionados à saúde mental, 126 acompanhamentos no Programa de Dependência Química e Jogos Digitais e 1.328 ações de conscientização e prevenção.
O cuidado se estende ao voluntariado. Desde a criação do Programa Cuidar, 566 colaboradores participaram de ações com instituições sociais e órgãos públicos. Em 2025, o programa avançou em iniciativas de leitura e proteção da primeira infância, mantendo também atividades como plantio de mudas e mobilizações beneficentes.
Mais do que benefícios isolados, os dados revelam uma tentativa de transformar acolhimento e responsabilidade social em elementos permanentes da cultura organizacional.
“Sempre foi sobre negócios” — mas sobre que tipo de negócio?
Ao assumir a apresentação, João Paulo Figueira propôs uma reflexão direta: qual é o impacto positivo de uma empresa sobre a sociedade e qual legado ela deixa nas comunidades em que atua?
O gerente de Desenvolvimento Sustentável apresentou uma trajetória iniciada ainda em 2010, com a incorporação gradual da sustentabilidade ao planejamento estratégico, a criação de uma área dedicada ao tema e a adesão a compromissos públicos. O movimento levou a agenda socioambiental de uma posição periférica para uma atuação transversal.
Em um dos momentos mais provocativos da apresentação, uma frase ocupou sozinha a tela: “Sempre foi sobre negócios.” A afirmação não reduzia sustentabilidade a argumento comercial. Ao contrário, apontava que desempenho econômico, confiança e impacto precisam fazer parte da mesma decisão empresarial.
Essa integração é organizada pelo Programa MAIS Sustentável, estruturado em quatro pilares: Meio Ambiente, Animais, Indivíduos e Sociedade. O programa estabelece metas, indicadores e projetos de curto, médio e longo prazo, com acompanhamento transversal pelo Departamento de Desenvolvimento Sustentável.
A agenda já apresenta resultados expressivos. Em 2025, a empresa desviou 99,98% de seus resíduos sólidos industriais de aterro, manteve eficiência de 97% na remoção da carga orgânica dos efluentes e reduziu em aproximadamente 20% o volume total de resíduos gerados. Melhorias no sistema de caldeiras evitaram, de forma acumulada, a emissão de 6.312 toneladas de CO₂ equivalente.

A gestão de resíduos passou a incluir rastreabilidade, segregação e valorização de materiais. Das aproximadamente 5 mil toneladas geradas em 2025, apenas uma pequena parcela seguiu para destinação final. A empresa também mantém parceiros locais de coleta e reciclagem com relacionamentos superiores a 15 anos, fortalecendo empresas regionais, empregos e a economia circular.
Na gestão hídrica, 37% da água consumida já procede de fontes reutilizadas. Um sistema com 3,5 quilômetros de tubulação e 23 tanques, capazes de armazenar mais de um milhão de litros, permitiu o reaproveitamento de 10.720 m³ de água pluvial em 2025.
O relatório também expõe os pontos ainda em construção. A meta era reduzir em 15% o consumo de água potável até 2025, em comparação com 2021, mas o indicador terminou o período em 6,8%, após alcançar 10,8% no ano anterior. A companhia atribuiu o recuo ao aumento da produção e à postergação de projetos estruturantes, previstos para serem retomados, mantendo o objetivo de redução de 50% até 2030.
A inclusão desse resultado, menos favorável, dá consistência ao compromisso de transparência. Sustentabilidade, nesse caso, deixa de ser uma coleção de campanhas e passa a ser uma agenda sujeita a metas, correções de rota e prestação de contas.
Quando o desenvolvimento da empresa alcança o território
A relação da Special Dog com Santa Cruz do Rio Pardo ajuda a explicar por que a comunidade ganhou destaque na celebração de seus 25 anos. A cidade não abriga apenas a matriz e o parque industrial: tornou-se parte da própria identidade da organização.
Em 2025, a empresa destinou aproximadamente R$ 5 milhões a iniciativas de impacto social. O montante reuniu investimento social privado e recursos de leis de incentivo, distribuídos entre o Centro Cultural Special Dog, programas estruturantes, filantropia e projetos comunitários.
O Centro Cultural é o principal símbolo dessa atuação. Ao longo de 2025, suas atividades impactaram 257.065 pessoas, crescimento de 36% em relação ao ano anterior. A programação reúne formação artística, apresentações musicais, artes cênicas, oficinas e atividades educacionais abertas à população.

Eventos como o Grito de Carnaval, a Noite da Voz, a Mostra de Artes Cênicas e a Cantata de Natal atraíram milhares de participantes. As programações também mobilizaram doações de alimentos, leite e recursos financeiros destinados a instituições como o Educandário O Lar da Criança e a Rede de Combate ao Câncer.
“Mais do que apresentar resultados, este material evidencia valores, escolhas e o impacto positivo que pode ser gerado quando valorizamos pessoas”, registra Juliana Manfrim, diretora do Centro Cultural. Para ela, cultura, educação, inclusão e fortalecimento de vínculos compõem uma mesma estratégia de transformação social.
Outras iniciativas ampliam esse alcance. O programa realizado com o Instituto Avisa Lá e a rede municipal de ensino chegou, em média, a 2.380 crianças por mês, envolvendo 24 escolas públicas. O Projeto Inspirar mobilizou estudantes na criação de propostas relacionadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O Futuro em Foco formou 40 jovens para o ingresso no mercado de trabalho, enquanto a 14ª edição do gibi Turminha da Special Dog distribuiu 30 mil exemplares em 18 municípios.
Na frente filantrópica, foram investidos R$ 631,4 mil em 2025. A rede apoiada contempla organizações ligadas à segurança alimentar, saúde, educação, primeira infância, pessoas com deficiência, acolhimento de crianças e adolescentes, recuperação de mulheres com dependência química e preservação ambiental.
Também há um componente econômico relevante. Em 2025, a Special Dog movimentou R$ 618,7 milhões com fornecedores instalados em um raio de até 150 quilômetros de suas operações. Ao priorizar relações locais, a companhia reduz distâncias logísticas e mantém parte importante do valor gerado nos territórios onde atua.
Proteção ambiental que chega ao Rio Pardo
O apoio à ONG Rio Pardo Vivo conecta a agenda industrial à preservação do principal patrimônio natural da região. As ações alcançam uma bacia hidrográfica de aproximadamente 4.800 km², distribuída por 15 municípios do Centro-Oeste Paulista.
Em 2025, cerca de 1.500 pessoas participaram de atividades de educação e mobilização ambiental. O Projeto Cardume promoveu a soltura de aproximadamente 150 mil peixes nativos. O Projeto Nascentes plantou 37 mil mudas em áreas de preservação, enquanto o Programa Óleo Amigo recolheu 13.200 litros de óleo de cozinha usado. Outras 200 mudas foram plantadas em calçadas e praças por meio do Santa Cruz Mais Verde.
São ações que tornam visível um conceito muitas vezes abstrato. A água utilizada na indústria, o rio que atravessa a região, os fornecedores locais, os colaboradores e as famílias da comunidade pertencem ao mesmo território. Cuidar de um desses elementos sem considerar os demais seria insuficiente.
Durante entrevista ao DigiVets, Priscila relacionou essa integração ao conceito de Saúde Única. Embora não utilizasse anteriormente essa nomenclatura, reconheceu no MAIS Sustentável uma estrutura que conecta meio ambiente, animais, indivíduos e sociedade. “A gente entende que é nosso papel como empresa contribuir para o equilíbrio desse sistema”, afirmou.
O cuidado também alcança animais em situação de vulnerabilidade
No pilar Animais, o Programa Bem Nutrir mantém há mais de dez anos o apoio a abrigos, protetores independentes e organizações de proteção animal. Em 2025, foram doadas 110,1 toneladas de alimentos a 46 iniciativas, beneficiando 9.296 cães e gatos em situação de vulnerabilidade.
Já o Doe Amor trabalha para ampliar a disponibilidade de sangue veterinário e conscientizar responsáveis sobre a doação realizada por cães e gatos. Somente em 2025, a estimativa foi de 70.345 animais beneficiados. Desde a criação do programa, o alcance acumulado chegou a 248.994 animais.
A empresa também incorporou critérios de bem-estar animal à seleção de matérias-primas. Desde 2023, todos os produtos que utilizam ovos adotam exclusivamente ingredientes provenientes de sistemas livres de gaiolas, compromisso que pode impactar aproximadamente 106,6 mil galinhas. A companhia também utiliza farinha de tilápia oriunda de aquicultura certificada e passou a estudar substitutos para ingredientes tradicionais, como o uso de algas no lugar do óleo de peixe como fonte de ômega-3.
Ciência para transformar a nutrição pet
Se sustentabilidade foi apresentada como parte da estratégia empresarial, Mariana Monti mostrou como ela pode chegar efetivamente ao alimento.
“Ciência e escuta ativa do consumidor caminham juntas”, destacou a gerente de P&D. O princípio orienta pesquisas que combinam evidências científicas, informações fornecidas por veterinários e responsáveis por pets e necessidades nutricionais relacionadas à saúde, longevidade e bem-estar.
Entre 2017 e 2025, a empresa investiu mais de R$ 20,5 milhões em pesquisa e desenvolvimento. Para 2026, a previsão apresentada é de outros R$ 10 milhões. No mesmo intervalo, o número de produtos passou de 13, em 2017, para mais de cem em 2026.

A Bionatural Sensitive sintetiza esse encontro entre nutrição, ciência e responsabilidade ambiental. O produto utiliza proteína de insetos, farinha de tilápia certificada e embalagem monomaterial reciclável. O desenvolvimento envolveu estudos de digestibilidade, palatabilidade e pH urinário, parceria clínica com a Universidade Federal de Lavras, financiamento de pesquisa acadêmica e avaliação de ciclo de vida em conjunto com a Universidade Estadual de Maringá.
Menos de um ano depois da chegada ao mercado, a solução já estava presente em mais de 23,5 mil pontos de venda, tornou-se o quinto produto mais vendido da família Bionatural e quadruplicou o volume comercializado de proteína em dez meses.
Para Priscila, o caso demonstra que sustentabilidade e desempenho comercial não precisam ocupar lados opostos. “Não são divergentes, são complementares”, afirmou ao DigiVets, ao comentar os indicadores ambientais e de mercado associados ao produto.
A estratégia científica será ampliada pelo InovaPet, centro de pesquisas desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual de Maringá. Com investimento estimado em R$ 1,7 milhão, a estrutura foi concebida para conectar o time interno a universidades e especialistas, acelerar estudos sobre nutrição avançada e sustentabilidade e ampliar o uso de métodos in vitro, reduzindo a necessidade de testes com animais.
R$ 300 milhões para abrir o próximo ciclo
O maior investimento da história da Special Dog Company já começa a materializar o futuro apresentado durante a celebração. A nova fábrica de Mateus Leme, em Minas Gerais, receberá aproximadamente R$ 300 milhões e deverá iniciar a operação em 2027.
A unidade terá linhas de alimentos secos e snacks, capacidade de produção de até 10 mil toneladas mensais e potencial para gerar cerca de 350 empregos diretos. Sua localização foi escolhida para ampliar a eficiência logística e aproximar a companhia de mercados como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e outras regiões nas quais ainda há espaço para crescimento.

Planejada com tecnologias associadas à indústria 4.0, a fábrica também deverá incorporar avanços na gestão hídrica, no controle de resíduos, na automação e na rastreabilidade. Mais do que adicionar capacidade produtiva, o projeto busca permitir que a Special Dog alcance novas praças sem reproduzir integralmente as distâncias logísticas da matriz paulista.
A expansão será sustentada por três direcionadores definidos por Priscila: inovação de produto, relacionamento com clientes e excelência operacional. “A gente tem que fazer melhor, mas fazer com menos”, afirmou, ao destacar que eficiência não pode comprometer a entrega de alimentos nutricionalmente balanceados e seguros.
No ciclo estratégico de 2026 a 2030, essas prioridades ganham três palavras: foco, impacto e perenidade. Foco para concentrar investimentos no que gera valor; impacto para ampliar a contribuição ambiental, social e econômica; e perenidade para garantir que o crescimento seja sustentável no longo prazo.
Os próximos 25 anos começam agora
Ao final do encontro, a sensação era de que a data comemorativa havia funcionado menos como uma retrospectiva e mais como uma passagem de bastão.
Os primeiros 25 anos transformaram uma empresa familiar do interior paulista em uma das maiores indústrias de pet food do país. Os próximos serão atravessados por desafios diferentes: responsáveis mais informados, novas fontes de proteína, pressão por eficiência, mudanças climáticas, circularidade de embalagens, expansão geográfica e necessidade de comprovar, com indicadores, o impacto produzido.
A Special Dog chega a esse novo capítulo sustentada por escala industrial, ciência aplicada e relações construídas ao longo do tempo. Mas talvez seu ativo mais difícil de reproduzir esteja justamente fora das fábricas: a ligação com o território, os colaboradores, os parceiros comerciais, as universidades, as organizações sociais e as famílias que cresceram ao redor da companhia.
“Estamos investindo para os próximos 25 anos, não apenas celebrando os primeiros”, concluiu Priscila. A frase resume a noite — e também o compromisso que acompanhará a empresa quando as luzes da comemoração forem apagadas e o trabalho do próximo ciclo começar.
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