Em entrevista ao Digivets, a pesquisadora Jalusa Deon Kich analisa a complexidade da salmonelose na produção de suínos, os gargalos no diagnóstico e os caminhos para um controle mais efetivo nas granjas brasileiras.
A salmonelose segue como um dos principais entraves sanitários e produtivos da suinocultura moderna. Estimativas internacionais indicam que a prevalência de granjas positivas pode variar de 30% a mais de 70%, dependendo do sistema de produção e da metodologia de diagnóstico empregada. Além disso, a doença está entre os principais agentes associados a surtos de doenças transmitidas por alimentos em humanos, reforçando seu impacto ao longo de toda a cadeia produtiva.
Para aprofundar esse cenário, durante o evento Salmonella Expertso Digivets conversou com a pesquisadora Jalusa Deon Kich, da Embrapa, referência na área de sanidade de suínos e epidemiologia de patógenos zoonóticos.
Digivets: A salmonelose é frequentemente citada como um problema relevante na suinocultura, mas ainda pouco percebido no dia a dia da granja. Por que isso acontece?
Jalusa Kich: Esse é um dos principais pontos. A salmonelose, na maioria das vezes, não se manifesta com sinais clínicos evidentes. Estudos mostram que mais de 80% das infecções em suínos de terminação são subclínicas. Mesmo assim, esses animais podem apresentar reduções de até 5–10% no ganho médio diário e piora na conversão alimentar. Ou seja, o produtor muitas vezes não “enxerga” o problema, mas ele está ali, afetando diretamente os resultados produtivos.
Digivets: Então podemos dizer que o impacto produtivo é maior do que o sanitário visível?
Jalusa Kich: Sem dúvida. Quando olhamos para perdas econômicas, elas estão muito mais associadas ao efeito subclínico. Pequenas reduções de desempenho, quando multiplicadas em sistemas com milhares de animais, geram impactos expressivos. Além disso, há aumento da variabilidade dentro dos lotes, o que compromete a uniformidade e pode afetar indicadores de abate.
Digivets: Do ponto de vista epidemiológico, o que torna a Salmonella tão difícil de controlar dentro das granjas?
Jalusa Kich: A Salmonella é extremamente adaptável. Ela pode persistir no ambiente por semanas a meses, dependendo das condições, e contaminar diferentes pontos do sistema — instalações, ração, água e os próprios animais. Em muitos casos, uma parcela significativa do lote pode estar infectada, mas apenas uma fração elimina o agente no momento da coleta, o que dificulta a detecção e favorece a manutenção da infecção ao longo do tempo.
Digivets: Essa característica de eliminação intermitente impacta diretamente o diagnóstico?
Jalusa Kich: Impacta muito. A eliminação fecal de Salmonella pode variar ao longo dos dias e ser influenciada por estresse, transporte ou mudanças de manejo. Isso significa que um único ponto de coleta pode não representar a realidade do lote. Por isso, programas mais robustos trabalham com amostragens seriadas e múltiplos pontos — por exemplo, fezes ambientais, suabes de arrasto e conteúdo intestinal no abate — para aumentar a sensibilidade do diagnóstico.
Digivets: Pensando na cadeia como um todo, qual é o peso da salmonelose na segurança dos alimentos?
Jalusa Kich: A Salmonella é um dos principais agentes envolvidos em doenças transmitidas por alimentos no mundo. Em alguns levantamentos europeus, por exemplo, mais de 20% das carcaças suínas podem apresentar contaminação em determinados contextos. Isso mostra como o controle na granja é fundamental, porque ele impacta diretamente o risco ao consumidor.
Digivets: Quais são hoje os principais erros ou lacunas no controle da salmonelose nas granjas?
Jalusa Kich: Um erro comum é subestimar o problema por falta de sinais clínicos. Outro ponto é a ausência de monitoramento estruturado. Sem dados, o produtor não consegue medir evolução nem impacto das medidas adotadas. Além disso, falhas de biosseguridade — como controle inadequado de entrada de pessoas, veículos ou insumos — continuam sendo um fator importante na introdução e manutenção do agente.
Digivets: Existe um “caminho ideal” para o controle da salmonelose?
Jalusa Kich: Não existe uma solução única, mas sim um conjunto de medidas. Granjas que conseguem reduzir a prevalência geralmente adotam programas integrados, envolvendo biosseguridade, manejo de fluxo, limpeza e desinfecção rigorosas e monitoramento contínuo. Em alguns casos, essas estratégias podem reduzir significativamente a positividade ao longo do tempo, mas isso exige consistência na aplicação.
Digivets: Considerando a evolução da suinocultura, o problema tende a aumentar nos próximos anos?
Jalusa Kich: Sistemas mais intensivos tendem a aumentar o risco de disseminação se não houver controle adequado. Por outro lado, também temos mais ferramentas hoje — tanto em diagnóstico quanto em manejo — que permitem um controle mais eficiente. O desafio é aplicar essas ferramentas de forma consistente.
Digivets: Qual a principal mensagem que o produtor deve levar sobre a salmonelose?
Jalusa Kich: Que é um problema real, mensurável e economicamente relevante, mesmo quando não é visível. E que o controle depende de estratégia e continuidade. Não é uma ação pontual, é um processo.
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