Por Digivets

Abril 13, 2026

Salmonella na suinocultura: “não é uma doença, é um ecossistema dentro da granja”, alerta especialista

Em entrevista ao Digivets, a médica-veterinária Luciana analisa a complexidade da Salmonella nos sistemas produtivos, o avanço da resistência e o papel de estratégias integradas, incluindo imunização, no controle da doença.

A salmonelose deixou de ser apenas um desafio sanitário pontual para se consolidar como um problema estrutural dentro da suinocultura moderna. Com elevada prevalência, forte impacto produtivo e crescente preocupação com resistência antimicrobiana, o tema foi destaque durante evento técnico recente.

Para aprofundar essa discussão, o Digivets conversou durante o evento Salmonella Experts com Luciana Hernig, médica-veterinária da Boehringer Ingelheim, onde lidera iniciativas técnicas e estratégicas voltadas à sanidade de suínos, com foco em doenças entéricas e segurança dos alimentos. Com forte interface entre campo, indústria e ciência aplicada, sua atuação envolve o desenvolvimento e a implementação de programas sanitários integrados, incluindo soluções imunológicas e estratégias de controle baseadas em dados epidemiológicos, a Dra. Lucina nos deu sua visão sobre os avanços recentes no controle da Salmonelose.

Digivets: Na sua visão, qual é o real tamanho do problema da Salmonella hoje na suinocultura?

Luciana: A Salmonella é um problema muito maior do que normalmente se percebe. Quando olhamos os dados de prevalência, vemos que ela está amplamente distribuída nos sistemas produtivos. Em levantamento recentes por exemplo, a variante monofásica de S. Typhimurium representou cerca de 42,5% dos isolados de casos clínicos em granjas, seguida por S. Choleraesuis com aproximadamente 33%. Isso mostra o quanto o agente está presente e adaptado ao sistema produtivo.

Digivets: E além da prevalência, a resistência também é um ponto crítico, certo?

Luciana: Sem dúvida. Hoje observamos níveis muito altos de multirresistência. Em alguns cenários, mais de 90% das cepas são resistentes a 3 ou mais antimicrobianos usados na suinocultura, chegando a cerca de 94,7% em determinados perfis . Isso reduz drasticamente as opções terapêuticas e reforça a necessidade de estratégias preventivas mais robustas.

Digivets: Você costuma dizer que a Salmonella é muito mais do que uma doença.  O que isso significa na prática?

Luciana: Significa que não adianta tratar como um evento isolado. A Salmonella está no ambiente, nos animais, na ração, na água — ela circula dentro da granja. E muitos animais são portadores assintomáticos. Então, você tem um sistema que mantém a infecção ativa continuamente. Se você não atuar de forma integrada, o problema persiste.

Digivets: Como isso se traduz em impacto produtivo?

Luciana: Em situações de desafio, vemos aumento de mortalidade, especialmente na creche, com picos que podem ultrapassar 10–14% . Além disso, quando conseguimos controlar a doença, há ganho direto de desempenho — já observamos, por exemplo, aumento de até 1,2 kg no peso final de terminação em animais protegidos .

Digivets: O impacto também se estende até o abate, correto?

Luciana: Sim, e isso é fundamental. A presença de Salmonella em fezes e linfonodos no abate é um dos principais pontos de risco para os frigoríficos, pensando em saúde pública. Estratégias de controle eficazes conseguem reduzir significativamente esse percentual — há dados mostrando redução de mais de 80%  de linfonodos positivos para Salmonella spp., por exemplo. Isso tem impacto direto na segurança dos alimentos.

Digivets: Dentro desse cenário, qual é o papel da vacinação no controle da Salmonella?

Luciana: A vacinação entra como uma ferramenta estratégica dentro de um programa integrado. Ela não substitui biosseguridade ou manejo, mas ajuda a reduzir a excreção, a pressão de infecção e os impactos clínicos e subclínicos. Especialmente com vacinas que atuam diretamente no trato intestinal e estimulam a imunidade celular e de imunoglobulinas de mucosa (IgA), que são fundamentais no controle da Salmonella.

Digivets: A apresentação trouxe diferentes formas de aplicação da vacina, incluindo a via gel. O que essa tecnologia representa de avanço na prática?

Luciana: Esse é um ponto muito interessante. A aplicação via gel representa um avanço importante em termos de otimização de mão-de-obra, praticidadee eficiência operacional.. Esta facilita a rotina na granja, reduzindo tempo de aplicação e dependência de manejo individual. Além disso, é uma forma de vacinação em massa usada já na maternidade, reduzindo o estresse dos leitões. Quando falamos de programas em larga escala, esse tipo de tecnologia faz muita diferença na consistência dos resultados.

Digivets: Qual a principal mensagem para o produtor que ainda subestima a Salmonella?

Luciana: Que ele provavelmente já está sendo impactado, mesmo sem perceber. A Salmonella é um problema silencioso, mas detectável e que pode ser prevenido, reduzindo os impactos na granja. E o controle exige consistência — não é uma ação pontual, é uma estratégia contínua, baseada em dados, manejo e prevenção. Neste contexto a vacinação é fundamental!

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