Por Digivets

Fevereiro 26, 2026

O uso de bacteriófagos na produção avícola: estratégias de aplicação ao longo da cadeia produtiva

Bacteriófagos na avicultura: aplicações estratégicas na cadeia produtiva

A crescente complexidade dos desafios sanitários na avicultura moderna tem exigido abordagens mais integradas e estratégicas para o controle de patógenos. Nesse contexto, os bacteriófagos deixam de ser apenas uma ferramenta conceitual e passam a ocupar um papel prático dentro dos programas de biosseguridade, especialmente pela sua versatilidade de aplicação ao longo da cadeia produtiva.

Diferentemente de intervenções pontuais, o uso de fagos permite a construção de um modelo baseado em múltiplas barreiras sanitárias, atuando de forma contínua desde as fases iniciais de desenvolvimento até o produto final. Essa abordagem amplia a eficiência do controle microbiológico e contribui para a redução progressiva da pressão de infecção nos sistemas produtivos.

Aplicação in ovo: intervenção precoce na colonização intestinal

A aplicação de bacteriófagos na fase in ovo tem como principal objetivo reduzir a colonização inicial por patógenos ainda nos estágios embrionários ou imediatamente após a eclosão. Essa estratégia é particularmente relevante, uma vez que a microbiota intestinal inicial exerce influência direta sobre a saúde, o desempenho e a suscetibilidade das aves ao longo do ciclo produtivo.

Estudos demonstram que a administração de coquetéis fágicos entre o 16º e o 17º dia de incubação permite a manutenção da viabilidade dos fagos até a eclosão, com detecção em elevada proporção de pintos recém-nascidos. Além disso, observa-se redução significativa da carga bacteriana intestinal e menor ocorrência de lesões associadas à colibacilose, indicando que a intervenção precoce pode atuar como medida preventiva na fase inicial da produção.

Nascedouros: controle da carga bacteriana inicial

Os nascedouros representam um dos principais pontos críticos para a disseminação de patógenos, devido à elevada densidade de animais, umidade e contato com superfícies contaminadas. Nesse ambiente, a aplicação de bacteriófagos atua diretamente na redução da carga bacteriana ambiental, contribuindo para menor exposição inicial dos pintinhos.

A administração profilática de fagos nos primeiros dias de vida, especialmente via água de bebida, tem demonstrado redução significativa da colonização intestinal por Salmonella, além de diminuição da excreção fecal do patógeno. Um ponto importante é a manutenção da microbiota intestinal, reforçando o caráter direcionado da ação dos fagos e sua compatibilidade com sistemas produtivos que buscam equilíbrio microbiológico.

Água e ração: controle contínuo no trato gastrointestinal

A aplicação de bacteriófagos via água ou ração representa uma estratégia de controle ao longo do ciclo produtivo, atuando diretamente no trato gastrointestinal das aves. Considerando que a transmissão fecal-oral é um dos principais mecanismos de disseminação de patógenos, essa abordagem contribui para reduzir tanto a colonização intestinal quanto a contaminação ambiental.

Estudos indicam que a suplementação com fagos não compromete parâmetros zootécnicos, como ganho de peso, consumo de ração ou conversão alimentar. Ao mesmo tempo, promove redução significativa da mortalidade e da carga bacteriana intestinal após desafios experimentais, evidenciando seu potencial como ferramenta de controle sanitário sem impacto negativo no desempenho produtivo.

Cama aviária: atuação sobre reservatórios ambientais

A cama de criação é reconhecida como um dos principais reservatórios de patógenos na avicultura, favorecendo a persistência de bactérias e a formação de biofilmes. Nesse cenário, a aplicação de bacteriófagos diretamente na cama atua na redução da carga bacteriana ambiental e na quebra de ciclos de reinfecção entre lotes.

A utilização de coquetéis fágicos por pulverização tem demonstrado redução significativa da população de Escherichia coli, incluindo cepas resistentes a antimicrobianos. Esse efeito direcionado sobre o ambiente contribui para diminuir a pressão de infecção sem interferir negativamente no desempenho das aves, reforçando o papel dos fagos como ferramenta estratégica dentro do manejo sanitário.

Carcaça: segurança dos alimentos no abatedouro

No processamento, a aplicação de bacteriófagos na superfície das carcaças representa uma etapa adicional de controle sanitário, contribuindo diretamente para a segurança dos alimentos. O tratamento com fagos específicos permite reduzir a contaminação por Salmonella e outros patógenos antes das etapas finais de processamento.

Resultados experimentais demonstram redução significativa da carga bacteriana em pele de frango tratada com bacteriófagos, incluindo casos de eliminação completa do patógeno em parte das amostras. Essa abordagem reforça o potencial dos fagos como ferramenta complementar dentro de programas de qualidade e atendimento a exigências regulatórias.

Modelo integrado: construção de múltiplas barreiras sanitárias

A principal vantagem da utilização de bacteriófagos na avicultura está na possibilidade de aplicação multifásica, permitindo a construção de um modelo integrado de controle sanitário. Ao atuar simultaneamente sobre o ambiente e o trato intestinal das aves, os fagos contribuem para interromper o ciclo de reinfecção e reduzir progressivamente a pressão de infecção entre lotes.

Essa lógica transforma o uso de fagos em uma ferramenta de gestão sanitária, baseada em evidência e alinhada às demandas de produção sustentável.

A aplicação de bacteriófagos ao longo da cadeia produtiva avícola representa uma evolução importante nas estratégias de controle sanitário. Mais do que uma solução isolada, trata-se de uma abordagem integrada, capaz de atuar em diferentes pontos críticos da produção.

Sua versatilidade, aliada à alta especificidade e à ausência de impacto negativo sobre o desempenho zootécnico, posiciona os fagos como uma ferramenta estratégica dentro de programas modernos de biosseguridade. Quando associados a diagnóstico, monitoramento microbiológico e boas práticas de manejo, permitem avançar na construção de sistemas produtivos mais eficientes, sustentáveis e alinhados ao conceito de One Health.

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