Por Digivets

Setembro 24, 2026

El Niño pode aumentar a chance de encontros com serpentes; especialista da Unifran ensina como agir

Com as mudanças climáticas e a possível intensificação do fenômeno, eventos extremos como calor intenso e tempestades modificam o habitat dos animais silvestres
 

De acordo com a Profa. Dra. Marcela Aldrovani, da Universidade de Franca (Unifran), a possível intensificação do El Niño pode alterar padrões de temperatura e chuva no Brasil. A especialista, que atua no Programa de Pós-graduação em Ciência Animal da instituição, alerta que eventos extremos como calor intenso, tempestades, enchentes ou estiagens prolongadas modificam a disponibilidade de abrigo, água e alimento para a fauna. Esse cenário favorece o deslocamento dos animais silvestres, aumentando a chance de encontros com serpentes em áreas urbanas, periurbanas e rurais.
 

De acordo com a especialista da Unifran, falar sobre o tema de forma preventiva é a melhor maneira de proteger as pessoas, os animais domésticos e a própria fauna silvestre. “O principal mito que ainda enfrentamos é a ideia de que toda cobra é perigosa, agressiva e deve ser morta quando aparece. Esse preconceito transforma um animal silvestre em inimigo antes mesmo de qualquer avaliação real de risco”, explica Marcela.
 

A professora esclarece que, embora acidentes ofídicos precisem ser tratados com seriedade, muitas espécies não representam risco importante às pessoas, mas toda serpente deve ser considerada potencialmente perigosa até avaliação especializada. “Mesmo entre as espécies peçonhentas, o comportamento mais comum é tentar fugir. A maior parte dos acidentes acontece quando o animal é pisado, encurralado ou quando alguém tenta capturá-lo ou matá-lo”, destaca.
 

Marcela pontua ainda que a percepção sobre esses animais varia culturalmente de acordo com a região. “A relação com as serpentes muda muito se falarmos da Amazônia, do Cerrado, da Mata Atlântica, de áreas rurais ou de condomínios próximos a fragmentos de mata no Sudeste. Por isso, a educação ambiental precisa respeitar os biomas e a realidade de cada comunidade.”
 

Como agir com segurança ao encontrar uma serpente

Se deparar com uma serpente em casa ou no quintal exige calma e técnica. Abaixo, a especialista elenca as principais recomendações para garantir a segurança de todos:

  • Mantenha a calma e afaste-se: não tente capturar, cutucar, empurrar ou matar o animal. Afaste crianças, idosos e animais domésticos.
  • Isole o ambiente: se possível, e sem se colocar em risco, isole o espaço onde o réptil está e chame o socorro especializado.
  • Quem acionar: entre em contato imediato com o Corpo de Bombeiros, a Defesa Civil, a Polícia Ambiental ou o órgão de zoonoses do município.
  • O que NÃO fazer: nunca jogue veneno, água quente ou fogo na serpente. Não tente prendê-la com baldes ou usar cabos de vassoura. Muitas picadas ocorrem justamente quando as pessoas tentam “resolver” a situação sozinhas.

Atenção redobrada com cães e gatos

Os animais de estimação costumam ser muito curiosos, o que os torna vítimas frequentes de picadas por curiosidade ou defesa de território. O tutor deve retirar o pet do local imediatamente para impedir que ele cheire, lata, avance ou tente brincar com a serpente.
 

Em caso de suspeita de picada em cães ou gatos, a recomendação é buscar atendimento veterinário imediatamente. Não se deve fazer torniquete, cortar o local da picada, sugar o veneno, aplicar gelo, pomadas ou medicamentos caseiros. Se possível, faça uma foto da serpente à distância para ajudar o veterinário na identificação do tratamento, mas nunca tente capturá-la.
 

Primeiros socorros para humanos

Em caso de acidentes com pessoas, lave o local com água e sabão, mantenha a vítima em repouso e busque atendimento médico imediatamente. Não faça torniquetes, cortes ou sucção no local. O atendimento deve ser feito em serviço de saúde, onde a equipe médica avaliará a necessidade de soro antiveneno específico e de outras medidas de suporte.
 

Importância ecológica e médica: do veneno à cura

As serpentes desempenham um papel vital que vai muito além do controle de roedores. Elas servem tanto como predadoras quanto como presas (para aves de rapina e mamíferos), regulando populações de anfíbios, lagartos, aves e peixes.
 

E esse papel varia de acordo com o bioma. No Cerrado, por exemplo, há espécies associadas a áreas abertas e campos secos; na Mata Atlântica, muitas dependem de áreas florestais densas e serapilheira; enquanto na Amazônia, a diversidade de ambientes abriga espécies terrestres, arborícolas, aquáticas e semiaquáticas. “Já em áreas de transição entre biomas, chamadas de ecótonos (como a transição entre Cerrado e Mata Atlântica), a presença dessas espécies ajuda a revelar a importância desses espaços como corredores ecológicos estratégicos para a conservação”, detalha Marcela.
 

Além do equilíbrio ambiental, as serpentes são valiosas para a ciência. “A peçonha é uma fonte valiosa de moléculas para a fabricação de medicamentos. Um exemplo clássico é o captopril, medicamento anti-hipertensivo desenvolvido a partir de pesquisas com compostos da peçonha da jararaca, com contribuição importante de estudos brasileiros”, pontua. Outro avanço nacional é o selante heterólogo de fibrina — uma “cola biológica” cicatrizante produzida a partir de uma enzima obtida da peçonha da cascavel combinada com sangue de grandes animais.
 

Você sabia? Cobra ou Serpente?

No uso popular brasileiro, “cobra” e “serpente” são usados como sinônimos. Cientificamente, contudo, o termo correto é serpente (répteis sem membros da ordem Squamata). Encontrar um desses animais em condomínios não significa que a natureza está “invadindo” as cidades, mas sim um reflexo do avanço urbano sobre as áreas verdes nativas.

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