Imunosenescência, inflamação crônica, perda de massa muscular e alterações da microbiota ajudam a explicar como o envelhecimento, a longevidade em cães e gatos e o câncer modificam o organismo e ampliam a importância do suporte nutricional no cuidado de pacientes geriátricos e oncológicos
Cães e gatos estão vivendo mais. O avanço da Medicina Veterinária, associado a melhores condições de cuidado, prevenção e nutrição, ampliou a expectativa de vida dos animais de companhia e tornou cada vez mais frequente a presença de pacientes geriátricos nos consultórios. A conquista, porém, vem acompanhada de um novo cenário clínico: com o envelhecimento, também cresce a ocorrência de doenças relacionadas à idade, entre elas as neoplasias.
A relação entre longevidade, câncer e nutrição foi discutida durante o Pet+Vet Congresso ANMV, realizado em 12 de agosto, na palestra “Longevidade, câncer e nutrição, há alguma relação?”. A apresentação foi conduzida pela médica-veterinária Juliana Cirillo, oncologista diplomada pela Associação Brasileira de Oncologia Veterinária (ABROVET), mestre pelo Departamento de Patologia da FMVZ-USP e coordenadora da Supra Especialidade de Nutrição Oncológica da ABROVET.

Mais do que relacionar idade avançada à maior ocorrência de tumores, a discussão percorreu as alterações biológicas que acompanham o envelhecimento e podem modificar o ambiente em que a doença se desenvolve. Imunosenescência, inflamação crônica de baixo grau, estresse oxidativo, perda de massa muscular e mudanças na microbiota intestinal aparecem como peças de um processo complexo e interligado.
Nesse contexto, a nutrição deixa de ser vista apenas como uma forma de fornecer calorias ao paciente e passa a ocupar espaço dentro de uma estratégia voltada à preservação da função, da massa muscular, da integridade intestinal e do equilíbrio metabólico.
Viver mais também muda o perfil das doenças
O envelhecimento não corresponde apenas à passagem do tempo. Ao longo dos anos, diferentes sistemas do organismo passam por alterações progressivas capazes de modificar a resposta a agressões, a capacidade de reparo e a manutenção da homeostase.
É nesse cenário que ganha importância o conceito de imunosenescência, caracterizado pelo envelhecimento do sistema imunológico. A vigilância imunológica sofre alterações progressivas, e células que anteriormente seriam identificadas e eliminadas podem encontrar um ambiente mais permissivo para permanecer no organismo.
Esse mecanismo ajuda a compreender por que o envelhecimento está associado à maior susceptibilidade a diversas doenças, inclusive neoplasias. O desenvolvimento do câncer, porém, não resulta de um único evento. Ele envolve acúmulo de alterações moleculares, falhas nos mecanismos de controle celular e interação constante entre células alteradas, sistema imunológico e microambiente tecidual.
O dano ao DNA ocupa posição central nesse processo. Quando ocorre em um organismo jovem e saudável, existem mecanismos capazes de identificar a alteração, realizar o reparo ou eliminar uma célula cujo dano não possa ser corrigido. Com o envelhecimento, a eficiência de diferentes sistemas de manutenção celular pode ser comprometida, aumentando a possibilidade de que alterações se acumulem ao longo do tempo.
A idade, portanto, não deve ser entendida simplesmente como um número associado estatisticamente ao câncer. Ela representa também uma transformação do próprio ambiente biológico no qual as células vivem.
Inflammaging: uma inflamação que envelhece junto com o paciente
Outra peça importante dessa relação é o chamado inflammaging. O termo descreve um estado de inflamação sistêmica crônica, persistente, silenciosa e de baixo grau que se intensifica com o envelhecimento.
Diferentemente da inflamação aguda, que surge como resposta a uma agressão e tende a desaparecer após a resolução do estímulo, o inflammaging permanece ativo em baixa intensidade. Ao longo do tempo, essa condição pode contribuir para o desenvolvimento e a progressão de diferentes doenças relacionadas à idade.
Inflamação, imunosenescência, estresse oxidativo e dano ao DNA não acontecem de maneira isolada. Esses processos interagem e podem reforçar uns aos outros, produzindo um ambiente progressivamente menos eficiente na manutenção da integridade celular.

A relação ganha especial importância na oncologia porque a inflamação também participa da biologia tumoral. Durante a apresentação, foram discutidas vias moleculares como a ativação do NF-κB, um importante regulador de genes envolvidos em processos que incluem inflamação, sobrevivência celular, proliferação, angiogênese e progressão tumoral.
O estresse oxidativo acrescenta outra camada ao problema. Espécies reativas podem provocar dano celular e ao DNA, aumentando a pressão sobre mecanismos de reparo que já podem estar comprometidos pelo envelhecimento.
Assim, a associação entre idade e câncer não representa uma simples sequência em que “o animal envelhece e desenvolve um tumor”. Trata-se de uma rede na qual alterações imunológicas, metabólicas e inflamatórias passam a modificar o equilíbrio do organismo.
Quando a vigilância imunológica perde eficiência
O sistema imunológico exerce papel importante na identificação de células alteradas. No envelhecimento e na doença oncológica, entretanto, a composição e o funcionamento dessa resposta podem mudar.
Estudos apresentados durante a palestra mostraram alterações em subpopulações de linfócitos de cães idosos e de pacientes com câncer. Entre os pontos discutidos esteve a participação das células T reguladoras, ou Tregs, cuja função fisiológica inclui limitar respostas imunológicas excessivas.
Em determinadas condições tumorais, porém, um ambiente mais imunossupressor pode favorecer a capacidade da neoplasia de escapar da resposta antitumoral. Ao mesmo tempo, modificações em populações de células citotóxicas podem comprometer ainda mais a vigilância imunológica.
Esse equilíbrio ajuda a mostrar por que tratar câncer não significa olhar exclusivamente para a massa tumoral. O tumor interage com células imunes, mediadores inflamatórios, tecidos adjacentes e o estado metabólico do hospedeiro.
E é justamente nesse ponto que o estado nutricional passa a ganhar relevância clínica.
Na balança, o peso pode esconder perda muscular
Em pacientes idosos e oncológicos, acompanhar apenas o peso corporal pode não ser suficiente.
Um animal pode manter o mesmo número na balança e, ao mesmo tempo, perder tecido muscular e acumular tecido adiposo. A mudança de composição corporal pode passar despercebida se a avaliação ficar restrita ao escore de condição corporal.
Por isso, a avaliação do escore de massa muscular ganha importância particular nesse grupo de pacientes.
A sarcopenia foi apresentada como uma síndrome complexa associada à redução de massa muscular e ao comprometimento da função muscular. Diminuição da mobilidade, fraqueza e perda de desempenho locomotor podem estar entre suas manifestações, enquanto alterações hormonais, inflamação, estresse oxidativo, menor síntese proteica, deficiência nutricional e redução da atividade física participam de sua fisiopatologia.

No paciente oncológico, preservar músculo assume relevância ainda maior. Durante a palestra, Cirillo destacou que a massa magra pode atuar como fator prognóstico independente de sobrevida, tornando sua avaliação parte importante do acompanhamento.
Isso muda a pergunta feita durante a consulta. Em vez de observar apenas se o paciente “emagreceu”, passa a ser necessário entender o que ele perdeu.
Uma redução de peso provocada principalmente pela perda de tecido adiposo produz um cenário diferente daquele em que o paciente perde musculatura progressivamente. Para o animal idoso, manter capacidade locomotora, força e independência funcional também significa preservar qualidade de vida.
Proteína é importante, mas músculo não se mantém apenas com alimento
A preservação muscular levou a discussão diretamente ao suporte nutricional.
Com o envelhecimento, vias catabólicas podem ganhar importância enquanto a síntese de proteína muscular se torna menos eficiente. Garantir disponibilidade adequada de aminoácidos passa, então, a ser uma das estratégias para tentar preservar a massa magra.
Entre os nutrientes discutidos estiveram os aminoácidos de cadeia ramificada, os BCAAs — leucina, isoleucina e valina. Eles participam do balanço nitrogenado e fornecem substratos relacionados à síntese proteica, razão pela qual são amplamente estudados na saúde humana e também despertam interesse na Medicina Veterinária.
O raciocínio, no entanto, não se resume a suplementar aminoácidos.
Para preservar musculatura é necessário associar substrato nutricional e estímulo mecânico. Quando as condições clínicas permitem, atividade física e mobilidade fazem parte da estratégia, enquanto o excesso de tecido adiposo deve ser evitado. A nutrição fornece os componentes necessários para a construção e manutenção do tecido; o músculo, por sua vez, precisa continuar sendo funcionalmente estimulado.
Essa combinação ajuda a deslocar o manejo nutricional do simples cálculo de calorias para uma avaliação mais ampla da composição e da função corporal.
Ômega-3 entra como aliado no controle do ambiente inflamatório
Os ácidos graxos ômega-3 também apareceram entre as possibilidades de suporte nutricional discutidas.
EPA e DHA são estudados sobretudo por suas propriedades relacionadas à modulação da resposta inflamatória. Além desse papel, pesquisas apresentadas durante a exposição exploram possíveis efeitos sobre síntese proteica, massa muscular, força e desempenho físico.
No contexto do envelhecimento e da oncologia, essa combinação é particularmente relevante. Um paciente submetido simultaneamente a inflamação crônica e perda de massa muscular apresenta duas condições capazes de comprometer sua funcionalidade e sua resposta clínica.
Isso não transforma o ômega-3 em tratamento isolado para câncer ou sarcopenia. Seu papel está dentro de uma abordagem nutricional mais ampla, construída de acordo com as necessidades do paciente.
A distinção é importante porque nutracêuticos e suplementos não devem ser tratados como atalhos. A primeira pergunta continua sendo básica: como está a dieta desse animal?
Somente a partir dessa avaliação faz sentido discutir complementações, ajustes e estratégias específicas.
Microbiota conecta intestino, imunidade e inflamação
Outro eixo importante da apresentação foi a microbiota intestinal.
O envelhecimento pode modificar a composição do ecossistema intestinal e comprometer a integridade da barreira que separa o conteúdo intestinal do restante do organismo. Quando essa barreira perde eficiência, produtos bacterianos e outros componentes podem alcançar tecidos e contribuir para a manutenção de respostas inflamatórias.
A disbiose passa, assim, a integrar uma relação de mão dupla. Inflamação e alterações imunológicas podem modificar a microbiota, enquanto uma microbiota desequilibrada pode favorecer novos estímulos inflamatórios.

Na oncologia, essa conexão tem sido investigada porque o microbioma pode interferir na resposta imunológica, na inflamação e até na maneira como o organismo interage com determinadas terapias.
Durante a palestra, a relação foi apresentada como um triângulo envolvendo microbiota, sistema imunológico e câncer, reforçando que o trato gastrointestinal não deve ser observado como um sistema isolado.
A modulação intestinal surge, então, como uma das frentes possíveis do suporte nutricional.
Probióticos, prebióticos e a importância de alimentar o ecossistema intestinal
Entre as estratégias discutidas estiveram probióticos, prebióticos e simbióticos.
Os probióticos podem auxiliar na modulação da microbiota, mas seu efeito depende das cepas utilizadas e de sua permanência no trato gastrointestinal. Como muitos microrganismos administrados não estabelecem colonização permanente, interromper a suplementação também pode reduzir os efeitos observados.
Os prebióticos trabalham por outra lógica: fornecem substratos capazes de ser utilizados pela microbiota já presente no intestino.
Fibras fermentáveis, incluindo compostos como frutooligossacarídeos, foram discutidas por sua capacidade de favorecer a produção de ácidos graxos de cadeia curta, entre eles o butirato. Esses metabólitos participam da manutenção da barreira intestinal, da produção de muco e da modulação das respostas inflamatória e imunológica.
O psyllium também apareceu entre as estratégias relacionadas à saúde intestinal, inclusive em felinos.
Ômega-3 e prebióticos, portanto, ocupam posições diferentes dentro do manejo: enquanto os ácidos graxos ômega-3 são explorados principalmente por sua capacidade de modular processos inflamatórios, prebióticos atuam como substrato para o ecossistema microbiano intestinal.
A diferença é relevante para evitar que diferentes ferramentas nutricionais sejam tratadas como se produzissem os mesmos efeitos.
Nutrição não trata o tumor sozinha — mas pode mudar o terreno
A pergunta que deu nome à palestra — longevidade, câncer e nutrição têm alguma relação? — não leva a uma resposta simples.
A alimentação não impede isoladamente que um animal desenvolva câncer e não substitui cirurgia, quimioterapia, radioterapia ou outras modalidades terapêuticas quando indicadas. O que a discussão apresentada no Pet+Vet evidencia é que o estado nutricional participa do ambiente no qual envelhecimento e doença acontecem.
Preservar massa muscular, controlar excesso de tecido adiposo, oferecer quantidade adequada de proteínas, considerar nutrientes capazes de modular processos inflamatórios e cuidar da saúde intestinal são estratégias que podem contribuir para manter o organismo em melhores condições ao longo do envelhecimento e durante o tratamento de doenças.

O cuidado também passa pelo uso criterioso de intervenções capazes de modificar a microbiota. Antimicrobianos, por exemplo, têm indicações clínicas importantes, mas o impacto que seu uso produz sobre o ecossistema intestinal reforça a necessidade de evitar utilização indiscriminada.
Mais do que acrescentar suplementos à dieta, o suporte nutricional exige olhar para o paciente como um todo: idade, composição corporal, doença de base, capacidade locomotora, ingestão alimentar, função intestinal e tratamentos concomitantes precisam fazer parte da decisão.
Longevidade não deve significar apenas acrescentar anos
A Medicina Veterinária passa a enfrentar um desafio produzido, em parte, pelo próprio avanço da assistência aos animais de companhia. Quanto mais cães e gatos vivem, maior se torna a necessidade de compreender e manejar as doenças associadas ao envelhecimento.
Câncer é uma dessas doenças, mas a relação entre neoplasia e idade começa muito antes do diagnóstico de um tumor. Imunosenescência, inflammaging, dano celular, alterações da composição corporal e mudanças da microbiota formam um terreno biológico que se transforma continuamente ao longo da vida.
Nesse contexto, a nutrição ganha relevância não porque exista uma dieta capaz de eliminar o risco oncológico, mas porque alimentar um paciente geriátrico significa também tentar preservar aquilo que o envelhecimento ameaça progressivamente retirar: musculatura, função, equilíbrio metabólico e integridade intestinal.
O objetivo, portanto, deixa de ser simplesmente prolongar a vida. Para o médico-veterinário, o desafio passa a ser trabalhar para que os anos adicionais sejam acompanhados de maior funcionalidade e qualidade de vida — inclusive quando o câncer entra nessa trajetória.
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