Adaptação metabólica, alterações na saciedade, genética, castração, microbiota e comportamento do responsável podem tornar a perda de peso mais complexa do que simplesmente reduzir calorias e aumentar a atividade física. Entenda o conceito de obesidade refratária em cães.
Nem todo cão que deixa de perder peso durante um programa de emagrecimento está diante de uma falha da dieta. Em alguns pacientes, principalmente nos quadros de obesidade mais acentuada, mecanismos fisiológicos e comportamentais podem reduzir progressivamente a resposta ao tratamento e transformar a manutenção da perda de peso em um dos maiores desafios da rotina clínica.
A discussão esteve no centro da palestra “Como eu trato o cão obeso que não responde ao plano de emagrecimento”, apresentada em 12 de agosto durante o Pet+Vet Congresso ANMV. O tema foi conduzido pelo médico-veterinário Thiago Henrique Annibale Vendramini, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) e responsável pelo Centro de Pesquisa em Nutrologia de Cães e Gatos da USP (Cepen Pet).
Obesidade refratária em cães
Ao longo da apresentação, o conceito de obesidade refratária serviu como ponto de partida para discutir aqueles pacientes em que a perda de peso deixa de acompanhar o resultado esperado, apesar das intervenções instituídas. Originado da Medicina Humana e ainda pouco explorado na Medicina Veterinária, o termo não foi tratado como sinônimo de um simples quadro de sobrepeso, mas como uma condição associada à obesidade grave e à dificuldade de obter ou sustentar resposta ao tratamento.
A questão muda a maneira de enxergar um paciente que chega ao terceiro ou quarto retorno sem apresentar a redução esperada na balança. Em vez de interpretar imediatamente a situação como falta de adesão ou erro na prescrição, a abordagem proposta durante a palestra amplia a investigação: quanto daquela resistência pode estar relacionado às adaptações do próprio organismo, quanto depende das características individuais do animal e quanto está acontecendo fora do consultório?
Emagrecer não é apenas uma equação
O cálculo das necessidades energéticas é uma das bases de qualquer programa de perda de peso, mas transformar o metabolismo de cães e gatos em uma fórmula capaz de funcionar da mesma maneira para todos os pacientes continua sendo um desafio.
A palestra colocou em discussão justamente as limitações dessas equações. Dois cães com peso semelhante não necessariamente apresentam o mesmo gasto energético. Raça, composição corporal, comportamento, nível de atividade e características individuais interferem no balanço energético e dificultam a aplicação de um valor matemático isolado como resposta definitiva.

Um dos exemplos apresentados contrapôs cães com comportamentos muito diferentes: enquanto um animal pode passar grande parte do tempo em repouso, outro, mesmo com características corporais próximas, pode permanecer ativo durante boa parte do dia. A mesma dificuldade aparece na avaliação dos gatos, cuja rotina e nível de atividade podem variar amplamente de acordo com o ambiente e o estilo de vida.
O problema se torna particularmente relevante quando o paciente já está em processo de emagrecimento. As necessidades energéticas não permanecem estáticas ao longo de toda a intervenção, e o organismo pode responder à restrição calórica com mecanismos que favorecem a conservação de energia.
Por isso, revisar os cálculos ao longo do acompanhamento passa a ser tão importante quanto defini-los na primeira consulta.
O platô de peso não significa que o tratamento parou de funcionar
Entre os conceitos que ganharam maior destaque esteve o chamado weight plateau, ou platô de peso. É o momento em que, após uma fase inicial de perda, a curva começa a desacelerar ou permanece temporariamente estável.
Para quem acompanha apenas o número mostrado pela balança, a impressão pode ser de que o programa deixou de funcionar. Para o organismo, entretanto, aquele período pode refletir uma resposta adaptativa à própria redução de peso.

A perda de tecido corporal e o déficit energético desencadeiam ajustes destinados a preservar as reservas do organismo. O gasto energético pode diminuir enquanto mecanismos relacionados à fome e à busca por alimento ganham força. Durante a palestra, foram discutidas alterações envolvendo mediadores ligados ao controle da ingestão e da saciedade, como grelina, leptina, GLP-1 e peptídeo YY, além da redução da taxa metabólica.
A consequência prática é um cenário desfavorável ao emagrecimento: o animal passa a gastar menos energia ao mesmo tempo em que o organismo aumenta os estímulos relacionados à ingestão.
E é justamente nesse ponto que muitos programas correm o risco de ser interrompidos.
Curvas de acompanhamento apresentadas durante a palestra mostraram pacientes que perderam peso inicialmente, passaram por períodos de estabilidade e depois retomaram a redução. Para o responsável que observa um cão cair de aproximadamente 33 kg para 32 kg e permanecer próximo desse peso no retorno seguinte, o resultado pode parecer frustrante. Sem compreender a dinâmica da curva, é fácil concluir que continuar o tratamento não fará diferença.
O terceiro ou quarto retorno, portanto, pode ser menos um momento para abandonar a estratégia e mais uma etapa em que o médico-veterinário precisa reavaliar o paciente, permitir que as adaptações metabólicas sejam consideradas e, principalmente, explicar o que está acontecendo.
Transformar o gráfico em uma ferramenta de comunicação pode ser decisivo para impedir que um platô fisiológico se transforme em abandono terapêutico.
O desafio central pode estar na saciedade
Se a redução do gasto energético representa uma parte do problema, a outra está na fome.
A saciedade ocupou uma posição central na discussão sobre estratégias para pacientes com maior resistência ao emagrecimento. Reduzir continuamente a quantidade de alimento sem considerar a experiência do animal pode aumentar a dificuldade de adesão e tornar a rotina alimentar mais frustrante tanto para o paciente quanto para a família.
As possibilidades apresentadas envolveram desde a composição do alimento até a maneira como ele é oferecido. Fibras, alterações no volume da dieta, tamanho e características dos kibbles, recipientes capazes de prolongar o tempo de ingestão e estratégias que favoreçam maior distensão gástrica foram abordados como caminhos possíveis para interferir na percepção de saciedade.

A proposta não é simplesmente tornar o alimento menos palatável. Uma dieta que provoque rejeição ou frustração não resolve o problema comportamental envolvido na restrição alimentar.
Estudos apresentados durante a exposição também mostram como a modulação metabólica vem sendo investigada. Em um trabalho de 2022 com cães obesos e resistentes à insulina, a inclusão de 0,1% de beta-glucanos de levedura na dieta foi associada à redução de glicemia de jejum, colesterol e triglicerídeos, além de alterações em marcadores metabólicos, incluindo aumento de GLP-1 em um dos grupos avaliados.
Os resultados ajudam a abrir caminhos de investigação, mas não transformam uma estratégia isolada em solução universal. Na obesidade refratária, a lógica apresentada foi justamente a de testar abordagens possíveis dentro de um acompanhamento individualizado, observando como aquele paciente responde.
“Ozempets” entram no debate, mas evidências ainda impõem cautela
O avanço dos agonistas do receptor de GLP-1 no tratamento da obesidade humana inevitavelmente chegou à discussão veterinária. Medicamentos dessa classe, popularizados pelo uso da semaglutida em pessoas, atuam entre outros mecanismos sobre o controle do apetite e passaram a despertar interesse também para cães e gatos.
A possibilidade, entretanto, está distante de representar uma conduta estabelecida na rotina veterinária.
Embora já existam publicações discutindo medicamentos para obesidade em animais e iniciativas comerciais envolvendo semaglutida, a própria apresentação destacou que ainda não há consenso para o uso de inibidores de apetite na prática clínica veterinária e que novos estudos são necessários para validar eficácia, segurança e aplicação.

Nesse ponto, Vendramini adotou uma posição cautelosa. Uma das preocupações levantadas foi a perda de massa muscular associada ao processo de emagrecimento. Em animais com expectativa de vida mais curta e alterações hormonais relacionadas, por exemplo, à castração, preservar massa magra ganha importância especial. Nos gatos, a atenção nutricional precisa ser ainda maior diante das particularidades metabólicas da espécie.
Há também uma diferença prática entre prescrever um medicamento a uma pessoa e incorporá-lo à rotina de um animal. Horário de administração, armazenamento e acompanhamento dependem integralmente do responsável, adicionando mais uma variável a tratamentos que já apresentam forte componente comportamental.
A discussão, portanto, não fechou a porta para possíveis aplicações futuras. O recado foi outro: a popularidade da estratégia em humanos não deve ser confundida com evidência suficiente para reproduzi-la automaticamente na Medicina Veterinária.
Castração, genética e microbiota ampliam o quebra-cabeça
A dificuldade de emagrecimento também não começa necessariamente no momento em que uma dieta é prescrita. Características acumuladas ao longo da vida podem alterar a predisposição ao ganho de peso e a resposta ao tratamento.
A castração é uma delas. Evidências apresentadas durante a palestra relacionam a esterilização ao aumento da ingestão e, principalmente, à redução da demanda energética. As mudanças hormonais também podem repercutir sobre composição corporal, tornando o manejo nutricional após o procedimento um ponto importante de prevenção.
A genética aparece como outra fronteira. Enquanto a influência genética sobre a obesidade é amplamente investigada em humanos, o conhecimento ainda é mais limitado em cães e gatos. Mesmo assim, diferenças entre raças e predisposições individuais indicam que o componente biológico não pode ser ignorado. O Labrador Retriever foi citado durante a apresentação como um exemplo conhecido de predisposição ao ganho de peso.
Essa informação, porém, também exige cuidado na forma como chega ao responsável. Predisposição não significa destino. Assim como ocorre na discussão sobre testes genéticos em humanos, conhecer antecipadamente um risco pode modificar a maneira como a família interpreta o comportamento alimentar do animal — e até produzir a impressão equivocada de que a obesidade seria inevitável.
Outro campo crescente é a microbiota intestinal. Trabalhos experimentais apresentados na palestra mostram que microrganismos intestinais podem interferir no aproveitamento energético e no metabolismo do hospedeiro. Estudos com transferência de microbiota ajudaram a demonstrar que esse ecossistema participa da regulação do peso para além da composição imediata da dieta.
Na Medicina Veterinária, o transplante de microbiota fecal já começa a aparecer como objeto de investigação em diferentes condições. Para obesidade, contudo, a proposta foi apresentada como mais uma possibilidade dentro de um problema multifatorial, e não como uma intervenção capaz de substituir dieta, acompanhamento ou mudanças ambientais.
O maior obstáculo pode estar fora do organismo
Mesmo a melhor prescrição perde força quando não consegue sobreviver à rotina da casa.
A parte final da palestra deslocou o foco da fisiologia para um componente igualmente decisivo: o ambiente obesogênico. O responsável que chega à consulta nem sempre é a única pessoa que alimenta o animal. Petiscos podem ser oferecidos por pais, avós, filhos ou outras pessoas da família, e pequenas porções de alimentos humanos frequentemente passam despercebidas durante uma anamnese convencional.
O desafio começa pela maneira como o assunto é abordado. Dizer simplesmente que um animal está obeso pode provocar resistência, especialmente quando peso e alimentação estão associados a afeto. A construção de vínculo passa a ser parte da investigação clínica.

Em vez de iniciar a consulta de forma acusatória, conversas sobre os hábitos e preferências do paciente podem revelar informações que dificilmente apareceriam em perguntas diretas. Um responsável que inicialmente relata oferecer apenas a ração prescrita pode, ao longo da conversa, mencionar presunto, petiscos ou alimentos oferecidos rotineiramente por outros moradores da casa.
É por isso que um programa de emagrecimento dificilmente é “ganho” na primeira consulta.
Uma das estratégias práticas apresentadas foi a gravação de vídeos curtos com orientações padronizadas. A ideia é permitir que a informação ultrapasse a pessoa que levou o paciente ao consultório. Quando outro integrante da família estiver prestes a oferecer um alimento fora do plano, a orientação do médico-veterinário continua disponível e ajuda a transformar uma recomendação abstrata em uma regra compartilhada dentro de casa.
O mesmo princípio vale para o acompanhamento do peso. Mostrar curvas, explicar o platô e apresentar de maneira compreensível os objetivos de cada fase reduz a distância entre aquilo que o profissional observa clinicamente e aquilo que a família percebe no dia a dia.
Em filhotes, a comunicação pode ser ainda mais delicada. Um animal acima do peso pode ser interpretado apenas como “fofo” ou robusto. A construção de uma curva de crescimento, em lógica semelhante à utilizada no acompanhamento infantil, foi apresentada como uma forma visual de demonstrar que o desenvolvimento está se afastando do padrão esperado e que a intervenção tem objetivo de saúde, não apenas estético.
Quando a balança não conta toda a história
A obesidade refratária coloca em xeque uma interpretação simplista do emagrecimento. Quando a curva de peso desacelera, reduzir ainda mais a quantidade de alimento ou atribuir imediatamente o resultado à falta de comprometimento da família pode deixar de fora uma série de mecanismos capazes de interferir na resposta clínica.
Adaptação metabólica, saciedade, alterações hormonais, características genéticas, castração, microbiota, rotina doméstica e adesão se sobrepõem em um mesmo paciente. Nesse cenário, o acompanhamento deixa de ser apenas uma prescrição calórica e passa a exigir revisões sucessivas, comunicação e capacidade de interpretar por que aquele indivíduo responde de determinada maneira.
O platô, assim, não precisa representar o fim de um programa. Pode ser justamente o momento em que o tratamento precisa ser melhor compreendido.
Para o médico-veterinário, o desafio está em reconhecer quando o organismo está se adaptando, identificar fatores que dificultam a perda de peso e traduzir essas informações para quem convive diariamente com o animal. Para o responsável, compreender que a redução de peso nem sempre acontece em linha reta pode ser a diferença entre abandonar o processo no terceiro retorno ou continuar até que os resultados reapareçam.
Em uma doença na qual fisiologia e comportamento caminham lado a lado, tratar o paciente obeso significa também tratar o ambiente que o cerca — e entender que, algumas vezes, a parte mais importante do programa começa justamente quando a balança parece ter parado.
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