Por Digivets

Março 30, 2026

No Animal Health Expo 2026, a professora Diana Cuglovici Abrão apresentou a experiência do Programa Cão Comunitário do IFSULDEMINAS – Campus Muzambinho, destacando seu impacto no manejo ético de cães em situação de rua e na formação técnica, humanitária e crítica de estudantes de Medicina Veterinária.

No Animal Health Expo 2026, a professora Diana Cuglovici Abrão apresentou a experiência do Programa Cão Comunitário do IFSULDEMINAS – Campus Muzambinho, destacando seu impacto no manejo ético de cães em situação de rua e na formação técnica, humanitária e crítica de estudantes de Medicina Veterinária.

Durante a programação de Medicina Veterinária do Coletivo, o tema “Programa Cão Comunitário em campus universitário e seu impacto na formação de estudantes” trouxe para o centro do debate uma questão cada vez mais relevante para instituições de ensino, gestores públicos e profissionais da área: como manejar de forma ética e tecnicamente consistente a presença de cães em situação de rua dentro de espaços universitários, sem reduzir o problema a remoções indiscriminadas ou soluções simplistas.

Foto: reprodução/Instagram @diana.abrao

Graduado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Araçatuba, em 2007, Daniel Leite possui especialização em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais pelo Instituto Qualittas / Universidade Castelo Branco e em Anestesiologia Veterinária pela ANCLIVEPA-SP em parceria com a Universidade Cruzeiro do Sul, além de atuar como membro do Colégio Brasileiro de Anestesiologia Veterinária (CBAV). Em sua apresentação, conectou legislação, rotina hospitalar, vulnerabilidade social, responsabilidade profissional e organização pericial em uma discussão particularmente relevante para a realidade da cidade de São Paulo.

Nem todo cão na rua pertence à mesma população

Um dos pontos conceituais mais importantes foi a distinção entre as diferentes subpopulações de cães em situação de rua. A rua não abriga um grupo homogêneo de animais. Ao contrário, nela coexistem cães:

· com tutor, mas soltos momentaneamente;
· perdidos;
· abandonados;
· comunitários;
· ferais;
· nascidos na rua.

Essa diferenciação é central porque interfere diretamente na forma de manejar o problema. Ao ignorar essas categorias, corre-se o risco de adotar políticas generalistas e pouco eficazes. Os animais podem inclusive transitar entre essas subpopulações ao longo do tempo, o que torna a leitura populacional ainda mais complexa.

Dentro desse contexto, o conceito de cão comunitário aparece como categoria específica: trata-se do animal que vive em espaço público ou coletivo, mas estabelece vínculo com determinada comunidade, recebe nome, alimentação, monitoramento e cuidados sanitários por parte de moradores, estudantes, trabalhadores ou frequentadores do local. Não se trata, portanto, de um cão simplesmente “solto”, mas de um indivíduo reconhecido socialmente e inserido em uma rede informal ou formal de cuidado.

Cão comunitário e manejo populacional ético

O cão comunitário deve ser compreendido dentro dos métodos humanitários de manejo populacional. A justificativa é técnica: animais esterilizados, vacinados, identificados e acompanhados atuam como barreira reprodutiva e sanitária, além de ocuparem um território que, de outra forma, poderia ser rapidamente preenchido por outros cães não monitorados.

Essa abordagem também tem implicações éticas relevantes. Retirar indiscriminadamente um animal de uma população estabilizada, vacinada e vermifugada e inseri-lo em um abrigo pode significar, na prática, apenas o deslocamento do problema e, em alguns casos, a criação de uma nova subpopulação confinada, com impactos importantes sobre bem-estar, estresse, adaptabilidade e risco de devolução posterior.

Aqui surge uma reflexão importante: acolher animais de rua pode ser bom e ruim ao mesmo tempo, dependendo do contexto, da estrutura disponível e do efeito real daquela retirada sobre o animal e sobre a população local. Em vez de romantizar o resgate como solução universal, a discussão insistiu na necessidade de considerar capacidade de suporte ambiental, dinâmica territorial, comportamento, saúde e destino efetivo dos animais.

Também foi lembrado que cães que passam por abrigamento têm, em muitos casos, maior chance de devolução ou dificuldade de adaptação, além de poderem apresentar sinais de estresse, como aumento de pacing e outros comportamentos repetitivos.

Um campus universitário não é abrigo, mas pode ser território de manejo ético

A experiência do IFSULDEMINAS – Campus Muzambinho aparece justamente como resposta a esse desafio. O campus possui uma área extensa, descrita como uma escola-fazenda com mais de 200 hectares, em zona rural, sem muros ou cercas integrais, situada entre uma rodovia e a cidade. Trata-se de um território cuja escala e posição geográfica favorecem a circulação e a entrada contínua de animais.

Vista de satélite do Campus Muzambinho mostra a dimensão da área institucional, a rodovia que corta o território e a cidade situada logo abaixo do campus.

Por se tratar de um campus fortemente vinculado às áreas veterinária e ambiental e contar com hospital veterinário, consolidou-se na percepção popular a ideia de que o local funcionaria como um “abrigo”, o que favorecia abandonos e circulação de cães e gatos. Ao longo do tempo, animais passaram a entrar e sair da instituição acompanhando transeuntes, sendo deixados em frente a prédios pedagógicos e ao hospital veterinário ou permanecendo no espaço em razão de alimentação informal por estudantes e servidores.

Esse processo contribuiu para a formação de uma população flutuante e, ao mesmo tempo, mostrou a insuficiência de respostas improvisadas. O campus precisava de manejo populacional, sanitário e comportamental, com regras claras, responsabilização e suporte técnico.

Fonte: Portal institucional do IFSULDEMINAS – Campus Muzambinho

O Programa Cão Comunitário do Campus Muzambinho

O Programa Cão Comunitário do IFSULDEMINAS – Campus Muzambinho foi criado em 2018 por meio de projetos de pesquisa e extensão. A proposta surgiu para organizar uma situação que já existia de maneira informal: a presença de cães que recebiam cuidados da comunidade acadêmica, mas sem protocolo institucional estruturado.

Nesse modelo, o cão comunitário é reconhecido como animal que estabelece vínculo com a comunidade e recebe cuidados por parte de mantenedores. Esses mantenedores são pessoas que acompanham e auxiliam os animais voluntariamente, mas dentro de uma lógica mais segura, formalizada e sanitariamente orientada. Um ponto relevante foi justamente o deslocamento do cuidado informal para um cuidado sanitário e monitorado, com menos improviso e maior proteção para pessoas e animais.

Segundo dados complementares da própria instituição, até 2020 o programa já havia proporcionado atendimento veterinário a 14 animais, com quatro adoções e manutenção de dez cães comunitários no campus sob cuidados adequados, resultando em redução de 28% da população de cães soltos no local. O projeto recebeu o Prêmio SEEDS de Educação em 2019 e foi publicado na Revista de Extensão do IFSULDEMINAS em 2020.

Reestruturação do programa diante de novos desafios

Após a pandemia, surgiram novos desafios. Entre 2023 e 2024, houve relatos de acidentes motociclísticos, mordeduras e formação de matilhas, o que exigiu revisão da estratégia institucional. Em resposta a esse cenário, foi criada em setembro de 2024 uma Comissão Técnica de Saúde Única do Campus Muzambinho, responsável por discutir o convívio da comunidade acadêmica com os animais em situação de rua e por estabelecer diretrizes de proteção tanto para os animais quanto para as pessoas.

Esse processo culminou na publicação da Instrução Normativa nº 1/2024, que definiu regras, deveres e direitos de gestão, servidores e alunos em relação ao tratamento dos cães comunitários do campus. Paralelamente, foi submetido e aprovado novo projeto de extensão para reimplantação de um programa de manejo populacional ético, com bolsa para estudante de graduação, recursos de custeio para antiparasitários e contratação de apoio técnico ao hospital veterinário.

Duas alunas do curso de Medicina Veterinária, Lívia Fernandes Cabral e Carolina Silveira Dias, passaram a integrar diretamente as ações técnicas de implantação do programa, reforçando o caráter formativo da iniciativa. As atividades foram submetidas e aprovadas pela CEUA do IFSULDEMINAS.

Microchipagem, vacinação, vermifugação e rastreabilidade

Um dos pontos mais sólidos foi o detalhamento das ações sanitárias. A partir de agosto de 2024, os cães passaram a ser monitorados de forma sistemática. Os animais não castrados foram encaminhados para esterilização cirúrgica, todos foram microchipados, vacinados com as imunizações essenciais e submetidos a controle de endo e ectoparasitas.

Os cães comunitários passaram a usar coleiras bordadas com nome e a identificação “Cão Comunitário”, facilitando reconhecimento e manejo. Já os cães flutuantes avistados por mais de dois dias no campus passaram a ser capturados, castrados, vacinados, microchipados e, se clinicamente aptos, retirados do campus por meio de adoção ou retorno à cidade.

Outro componente importante foi o de vigilância e gestão de dados. Os animais microchipados passaram a ser cadastrados em plataformas como o programa estadual de microchipagem e outros sistemas de identificação, o que contribui para estatística, rastreabilidade e planejamento. Também foi mencionado o uso de plataformas como SEMAD-MG e SinPatinhas, ampliando a integração entre manejo local e bases mais amplas de monitoramento.

Além disso, foi desenvolvido um sistema online exclusivo para o Programa Cão Comunitário, no qual cada animal pode ser acompanhado por foto, nome, sexo, status reprodutivo, vacinas recebidas e situação atual, incluindo adoção, óbito ou disponibilidade para adoção.

Crédito: Reprodução/AppSheet Cão Comunitário – Adoção

Manejo sanitário e educação em saúde dentro do campus

Outro eixo importante foi o do manejo sanitário continuado. Há levantamentos parasitológicos envolvendo animais comunitários e flutuantes, além de campanhas regulares de vacinação, como a campanha anual de raiva realizada com apoio da vigilância sanitária. As medidas preventivas integram uma lógica de saúde única, em que bem-estar animal, saúde coletiva, biossegurança e educação caminham juntos.

Também foram descritas ações educativas voltadas à comunidade acadêmica. Panfletos e vídeos informativos foram disponibilizados em espaços como refeitório e guarita, com orientações sobre guarda responsável, educação em saúde e conduta frente aos animais do campus. Um aspecto prático foi a orientação para que os estudantes não alimentem os animais no restaurante universitário, evitando reforço de comportamentos inadequados e interferências no manejo clínico. Em situações de tratamento, alguns cães usam sinalização específica, com mensagens como “estou em tratamento, não me alimente”.

Casos clínicos mostram o valor do programa

O programa vai além do controle populacional. Ele funciona como estrutura real de assistência clínica, triagem, educação e tomada de decisão. Entre os casos citados, apareceu o da Malu, cadela com cinomose infectocontagiosa que foi abandonada em uma casinha e tratada em isolamento no próprio local, em um esforço que tinha também dimensão simbólica: mostrar que aquele espaço não era lugar de abandono. Apesar do manejo, o animal evoluiu para óbito.

Outros casos incluíram Peludo, atropelado, e Caja, com edema, todos acompanhados dentro do escopo do programa. Esses exemplos ilustram como o campus se tornou ambiente de atenção clínica organizada, e não mero espaço de coexistência passiva com animais soltos.

O programa como ferramenta de ensino em Medicina Veterinária

Talvez o diferencial mais forte esteja justamente no foco na formação dos estudantes. O projeto foi incorporado a uma unidade curricular já no primeiro semestre do curso, permitindo que os alunos entrem em contato com prática clínica, semiologia, farmacologia, bem-estar e responsabilidade social desde o início da graduação.

Nesse contexto, os cães comunitários deixaram de ser apenas objeto de manejo e passaram a integrar a pedagogia do curso como pacientes reais, com histórico, demandas clínicas e necessidades de acompanhamento contínuo. Campanhas como o Outubro Pet Rosa, ações de adoção, atividades de semiologia e atendimentos supervisionados aparecem como exemplos de como o programa se converteu em ambiente vivo de aprendizagem.

Os próprios estudantes descrevem o projeto como experiência enriquecedora para a compreensão da clínica médica, semiologia e farmacologia, além de fortalecer uma formação mais humanitarista, sensível à justiça social e comprometida com a realidade concreta da medicina veterinária do coletivo.

Impactos observados e resultados iniciais

Os dados compartilhados apontam resultados relevantes. Em agosto de 2024, a população inicial era de 15 cães. Até fevereiro de 2025, houve seis entradas e sete saídas, por óbito, devolução à cidade e adoção ou lar temporário, totalizando 21 cães manejados. Nesse período, a população caiu de 15 para 14 animais, uma redução de 6,6%.

Embora a redução numérica possa parecer modesta, o resultado deve ser lido em um contexto mais amplo: não houve novos relatos de acidentes motociclísticos ou mordeduras no período, o que sugere impacto positivo do monitoramento, da intervenção sanitária e da reorganização institucional do convívio.

E os gatos? Um próximo desafio

O campus também possui quantidade importante de gatos, e essa população ainda não foi completamente incorporada às mesmas estratégias de testagem, identificação e microchipagem. Esse ponto aparece como frente futura de trabalho, indicando que o programa ainda está em expansão e aperfeiçoamento.

Saúde única, bem-estar e justiça social no ambiente universitário

A mensagem final é forte: programas de cão comunitário em campus universitário não devem ser vistos como simples tolerância à presença de animais, mas como estratégia de manejo populacional ético, saúde única, educação em saúde, bem-estar animal e formação profissional crítica.

Ao articular microchipagem, vacinação, castração, monitoramento, adoção, educação da comunidade e inserção dos estudantes na prática clínica, o Programa Cão Comunitário do Campus Muzambinho se coloca como modelo que busca equilibrar proteção animal, segurança da comunidade acadêmica e compromisso institucional. Mais do que administrar uma presença inevitável de cães no campus, a proposta é transformar esse desafio em campo formativo, técnico e ético para uma medicina veterinária mais conectada com a realidade social.

Reprodução/Instagram @caocomunitarioifmuz

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