No Animal Health Expo 2026, Dra. Mayara Travalini de Lima e Dra. Daniela Ramos discutiram como microexpressões, escalas validadas e mudanças no comportamento ajudam a identificar dor e desconforto em pequenos animais, como cães e gatos, especialmente em quadros em que os sinais clínicos tradicionais são discretos ou ambíguos.
Durante a programação de Clínica da Dor no Animal Health Expo 2026, a palestra “A linguagem silenciosa da dor: escalas faciais e comportamento” reuniu duas perspectivas complementares sobre um dos desafios mais relevantes da medicina veterinária contemporânea: reconhecer, medir e tratar a dor em animais que não verbalizam seu sofrimento. A apresentação foi conduzida pela Dra. Mayara Travalini de Lima, com trajetória acadêmica e clínica voltada à anestesiologia e à avaliação da dor aguda em cães, e pela Dra. Daniela Ramos, referência em comportamento animal aplicado, bem-estar e etologia clínica de cães e gatos.
Doutora em Anestesiologia pela FMB-UNESP Botucatu, mestre pela mesma instituição com ênfase em avaliação da dor aguda em cães, residente em anestesiologia veterinária pela FMVZ-UNESP Botucatu e especializada em anestesia regional pela FAMESP/IEP Ranvier, a Dra. Mayara trouxe para a discussão o eixo metodológico da mensuração da dor e a necessidade de instrumentos válidos para a prática clínica.

Já a Dra. Daniela Ramos, médica-veterinária formada pela FMVZ-USP, mestre pela Universidade de Lincoln, doutora e pós-doutora pela USP em comportamento animal, diplomada em etologia clínica veterinária e com ampla atuação em medicina veterinária comportamental, aprofundou a dimensão comportamental da dor e do desconforto, sobretudo em pacientes cuja linguagem corporal é frequentemente subestimada.

Dor não verbalizada não é dor ausente
Um dos pontos centrais da palestra foi a lembrança de que os animais não se comunicam por fala, mas isso não significa ausência de comunicação. Ao contrário: a dor se manifesta por meio de alterações comportamentais, posturais, expressivas e relacionais, muitas vezes discretas e progressivas, que podem passar despercebidas quando o clínico espera sinais mais evidentes.
Na discussão conduzida pela Dra. Daniela, esse raciocínio ficou particularmente claro em relação aos felinos. Segundo a palestrante, o gato sente dor, mas frequentemente o faz de forma mais sutil, mantendo parte da rotina e mascarando sinais clínicos que, em outras espécies, poderiam ser interpretados com maior facilidade. Em contraste, cães costumam expressar desconforto de maneira mais perceptível para muitos tutores, o que às vezes gera a falsa impressão de que felinos sofrem menos ou sinalizam menos dor. A questão, na verdade, não é menor sofrimento, mas uma forma distinta de expressão.

A palestra também chamou atenção para a necessidade de diferenciar dor, parestesia e disestesia (condições que podem ser interpretadas erroneamente como dor e levar a decisões terapêuticas inadequadas) uma vez que a relação entre sensação, desconforto e manifestação clínica nem sempre é óbvia. Em determinados quadros, como nas dores de coluna, por exemplo, o animal pode modificar a forma de buscar conforto, aumentar a procura pelo tutor, alterar interações e até desenvolver comportamentos repetitivos, como lamber superfícies, especialmente quando associado a outras alterações comportamentais e ao contexto clínico. Essas mudanças não são meros “tiques” ou desvios isolados: podem refletir uma neuroplasticidade associada à dor crônica, e mecanismos adaptativos ligados ao desconforto persistente.
Do achismo à mensuração: por que a dor precisa ser medida
Sob a perspectiva da Dra. Mayara, a evolução da clínica da dor em medicina veterinária passa necessariamente pelo abandono da pura subjetividade. A dificuldade histórica de avaliar dor em animais levou à criação de escalas e questionários, mas a palestra mostrou que nem toda ferramenta é igualmente útil, confiável ou validada.
A fala destacou que, durante muito tempo, a inferência da dor foi feita a partir de escalas simplificadas, com forte dependência da interpretação individual do observador. Nesse modelo, vieses ligados ao comportamento basal do paciente, ao perfil do avaliador e até aos efeitos de sedação podem comprometer a leitura clínica. Um animal sedado, por exemplo, pode gerar falsos positivos ou falsos negativos ao suprimir respostas motoras ou alterar a expressão facial, mascarando expressões ou reduzindo respostas comportamentais que seriam esperadas em situações de dor.
Por isso, a palestra reforçou a importância do conceito de “linha de base zero”: conhecer o comportamento habitual do paciente, seu estado basal e sua forma normal de interação com o ambiente. Sem essa referência, torna-se mais difícil distinguir o que é traço individual do que representa alteração clínica relevante.
Nesse contexto, a tríade proposta foi direta: reconhecer, medir e tratar. Para isso, as escalas devem funcionar como ferramentas complementares da avaliação clínica, nunca como substitutas do raciocínio médico. Elas ajudam a organizar a observação, reduzir arbitrariedades e embasar decisões como a necessidade de analgesia de resgate.
“Zoom in”: microexpressões, escalas faciais e avaliação de perto
Um dos blocos mais técnicos da apresentação abordou o chamado “zoom in”, ou seja, a observação aproximada do paciente, com foco em sinais sutis, especialmente em felinos. A ideia central é que muitos gatos não “anunciam” sua dor de forma exuberante; ao contrário, exibem pequenas alterações de face, tensão corporal, interação e posicionamento que exigem atenção treinada.
Nessa abordagem, as microexpressões ganharam destaque como parte da leitura clínica. Entre os elementos discutidos nas escalas faciais felinas estão alterações em olhos, orelhas, focinho/nariz e bigodes, organizadas em unidades de ação facial. O estreitamento orbital, a tensão no focinho, a modificação no posicionamento das orelhas e a retração dos bigodes são exemplos de sinais que podem compor escalas de grimace e instrumentos multidimensionais.

Os slides apresentados reforçaram justamente essa decomposição anatômica da expressão dolorosa, destacando que a leitura facial deve ser feita de forma estruturada e não intuitiva. Em vez de depender do “parece estar mal”, a proposta é identificar a presença ausente, moderada ou evidente de unidades de ação específicas, reduzindo a subjetividade da avaliação.
Também foi discutida a diferença entre respostas comportamentais evocadas e avaliação espontânea. Enquanto respostas evocadas dependem de estímulos mecânicos ou térmicos e capturam mais diretamente reflexos nociceptivos, a avaliação espontânea busca uma janela mais autêntica para o estado emocional e corporal do animal, sem necessidade de perturbação excessiva. Essa leitura espontânea, quando apoiada por escalas faciais validadas, foi apresentada como um caminho mais objetivo e clinicamente aplicável.
Escalas validadas, qualidade psicométrica e evidência clínica
Outro ponto importante da palestra foi a discussão sobre validação. Mais do que existir, uma escala precisa demonstrar robustez metodológica. Os slides apresentados citaram critérios de qualidade psicométrica, incluindo desenvolvimento da escala, consistência interna, confiabilidade, erro de medição, validade de construto e responsividade. Em termos práticos, isso significa responder perguntas fundamentais: os itens realmente medem dor? Avaliadores diferentes chegam a resultados semelhantes? A escala distingue animais com e sem dor? A pontuação muda de forma coerente após analgesia?
Na parte voltada aos felinos, foram mencionadas a Escala Multidimensional UNESP-Botucatu e a Glasgow CMPS-Feline, além da Feline Grimace Scale, com destaque para o avanço dos estudos entre 2020 e 2021, inclusive com trabalhos relacionados à validação e à confiabilidade interobservador. A mensagem central foi que essas ferramentas não servem apenas para especialistas em dor: podem apoiar clínicos gerais, equipes de enfermagem veterinária e, em alguns contextos, até tutores, desde que interpretadas com critério.
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A palestra também mostrou que o cenário atual já permite classificar escalas segundo o nível de evidência disponível em diferentes espécies. Em alguns casos, já existem escalas amplamente validadas e com alto nível de evidência; em outros, a evidência ainda é moderada ou baixa. Essa organização é importante porque evita o uso acrítico de instrumentos que ainda não atingiram maturidade suficiente para aplicação ampla.
E nos cães? Avanços e desafios de uma espécie mais “distrátil”
Embora boa parte da apresentação tenha explorado o refinamento das ferramentas em felinos, a discussão não deixou de lado a realidade dos cães. Segundo a Dra. Mayara, os cães apresentam desafios próprios: distraem-se com facilidade, respondem ao ambiente, podem demonstrar medo, excitação ou submissão, e isso interfere na leitura da dor. Sinais como sialorreia, alterações faciais, postura, cauda, vocalização e resposta à palpação precisam ser interpretados em conjunto com o contexto clínico.

Nesse sentido, foi apresentado no evento, de forma exclusiva, o desenvolvimento de uma escala canina vinculada a Botucatu pela palestrante Dra. Mayara, mostrando que a área avança para construir ferramentas mais ajustadas à realidade dos cães, assim como já ocorreu com felinos. Nos slides, esse raciocínio apareceu associado à observação sistemática por etapas: observação inicial sem interação, atitude frente ao ambiente e ao avaliador, locomoção e movimento, além da palpação da área afetada.
Também foram destacados componentes como expressão facial, foco do olhar, postura, posição da cauda, atenção à área dolorosa, vocalização e alterações locomotoras. A proposta é que esses parâmetros sejam integrados em um escore mais objetivo, reduzindo tanto o improviso quanto a supervalorização de sinais isolados.
“Zoom out”: o comportamento como histórico clínico ampliado
Se o “zoom in” foca os detalhes imediatos do corpo e da face, o “zoom out” apresentado pela Dra. Daniela expande a avaliação para a vida do animal. Nesse modelo, a dor é investigada não apenas no consultório, mas também em sua repercussão sobre rotina, preferências, ocupação do espaço, relações sociais e padrões comportamentais previamente conhecidos.
Foi enfatizado que muitos quadros de dor ou desconforto são inicialmente confundidos com “desobediência”, “manha”, “teimosia” ou “falta de educação”, quando na verdade representam resposta adaptativa a sofrimento físico ou emocional. A palestra destacou que uma parcela expressiva dos animais com queixas comportamentais pode ter dor ou desconforto subjacente, reforçando a necessidade de triagem médica cuidadosa.

Entre os domínios comportamentais citados, destacaram-se: personalidade, rotina, preferências, aversões, ocupação do espaço, relacionamentos, repouso, movimento, vocalização, sono/vigília, comportamento alimentar, eliminação, brincadeira, comportamentos indesejados e até o desempenho em ambientes externos à casa, como creche, hotel, banho e tosa ou interação com adestradores e comportamentalistas.
A lógica é simples, mas poderosa: o animal ainda gosta do que sempre gostou? Continua buscando sol no mesmo horário? Evita lugares antes preferidos? Passou a buscar mais acolhimento? Ficou mais manhoso, mais reservado ou, ao contrário, agitado de forma atípica? Mudou a forma de dormir, brincar, comer, vocalizar ou circular pela casa? Essa comparação longitudinal, sustentada pela história basal do paciente, pode revelar dor onde a observação pontual do consultório falha.
Questionários extensos afastam a prática clínica
Outro ponto crítico levantado pela Dra. Daniela foi a baixa adesão de muitos profissionais a instrumentos longos e pouco funcionais. Questionários com dezenas de perguntas ou várias páginas podem ser completos em teoria, mas acabam afastando o uso rotineiro na clínica. Por isso, a palestra defendeu a necessidade de formulários mais curtos, objetivos e assertivos, capazes de captar os principais domínios sem tornar a consulta inviável.
Essa crítica veio acompanhada de uma observação importante: ainda hoje, a área de comportamento animal é muitas vezes secundarizada na prática veterinária geral, como se estivesse desconectada da clínica médica de base. A palestra trabalhou justamente na direção oposta, mostrando que comportamento não é acessório: é fonte diagnóstica.

Enriquecimento ambiental, vínculo e manejo clínico
Ao longo da apresentação, também apareceu a noção de que o ambiente interfere diretamente na expressão e na leitura da dor. O enriquecimento ambiental em clínicas veterinárias foi citado como fator associado à melhora de prognóstico em cães e gatos, tanto por reduzir estresse quanto por permitir observação mais fiel do comportamento espontâneo.
Esse ponto dialoga com outra mensagem final forte dos slides: tratar a causa, não apenas o sinal. A analgesia é central, mas a intervenção clínica deve buscar restaurar vínculo tutor-paciente, qualidade de vida e funcionalidade, tratando a origem do desconforto sempre que possível.
O veredito clínico: investigar a dor e o comportamento em cães e gatos
A síntese final da palestra foi clara: comportamento é linguagem. Todo desvio comportamental relevante deve ser entendido como um potencial pedido de investigação médica. Em vez de reduzir o caso a rótulos simplistas ou escalas mal escolhidas, o clínico deve abandonar o achismo, recorrer a instrumentos multidimensionais validados e integrar observação facial, exame físico, histórico clínico e análise comportamental.
No encerramento, a mensagem apresentada em slide resume bem a proposta defendida pelas palestrantes: “investiguem o comportamento”. Na prática, isso significa reconhecer que a dor em medicina veterinária raramente está confinada a um único sinal e que sua avaliação exige uma leitura mais refinada do paciente como indivíduo, espécie, contexto e biografia comportamental.
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