Durante a programação de oftalmologia do Animal Health Expo 2026, a Dra. Juliana Jorge discutiu os principais fatores que determinam o sucesso no tratamento clínico das ceratites ulcerativas em cães e gatos, destacando a rápida progressão dessas lesões, a necessidade de diagnóstico preciso e a importância de protocolos terapêuticos bem definidos conforme a profundidade e a gravidade da úlcera.
Durante a sessão de oftalmologia, realizada em 11 de março no Animal Health Expo 2026, a médica-veterinária Dra. Juliana Jorge apresentou a palestra “Como ter sucesso no tratamento clínico das ceratites ulcerativas em cães e gatos”, abordando de forma prática e aprofundada os mecanismos envolvidos nas úlceras corneanas, seus principais fatores predisponentes, os métodos diagnósticos mais acessíveis para a rotina clínica e as decisões terapêuticas que impactam diretamente o prognóstico oftálmico.

A palestrante possui mestrado na área de Oftalmologia pela FMVZ-USP, é pós-graduada em Clínica Médica pela UNISA e em Oftalmologia Veterinária pela Anclivepa, além de ter realizado o Curso de Ciências Básicas em Oftalmologia no Hospital das Clínicas de São Paulo. É sócia e coordenadora da VetMasters Eventos, integra a equipe de oftalmologia da Clínica VetMasters e é graduada em Medicina Veterinária pela FMU.
A córnea como estrutura altamente sensível e vulnerável
Ao introduzir o tema, a Dra. Juliana Jorge destacou que a córnea é uma estrutura muito inervada, extremamente sensível e funcionalmente especializada, cuja integridade é essencial para a manutenção da transparência ocular e da visão. Do ponto de vista anatômico e fisiológico, a córnea foi apresentada como uma estrutura organizada em camadas, incluindo filme lacrimal, epitélio, estroma, membrana de Descemet e endotélio.
A palestrante ressaltou que, diante de uma lesão corneana, o objetivo biológico do tecido é sempre retornar ao estado estrutural original ou, quando isso não é possível em razão do aprofundamento da injúria, ao menos mitigar o dano por meio de cicatrização organizada. Nesse processo, o tempo de evolução da lesão, a profundidade acometida e a presença de fatores perpetuadores locais são determinantes para o sucesso clínico.
Principais causas de úlceras de córnea em cães e gatos
Ao discutir a etiologia das ceratites ulcerativas, a palestrante reforçou que as úlceras corneanas não devem ser encaradas como um diagnóstico final, mas sim como a consequência de diferentes agressões ou doenças de base.
Entre as causas mais frequentes, destacou-se o olho seco, ou ceratoconjuntivite seca, condição em que a deficiência quantitativa ou qualitativa do filme lacrimal compromete a proteção, a nutrição e a lubrificação da superfície ocular. Nesses casos, a córnea permanece mais exposta ao atrito, ao ressecamento, à inflamação e à infecção secundária, favorecendo tanto defeitos epiteliais persistentes quanto ulcerações mais graves. A palestrante lembrou ainda que, em cães, conjuntivites primárias isoladas são menos comuns em cães quando comparadas a causas secundárias, devendo-se sempre investigar doenças subjacentes, como olho seco e alterações imunomediadas.
O trauma também foi apontado como causa recorrente, incluindo arranhões, contato com vegetação, interações entre animais, fricção excessiva e manipulação inadequada da região ocular. Em muitos pacientes, o trauma inicial parece pequeno, mas pode desencadear lesões progressivas quando associado à contaminação bacteriana, à exposição corneana ou à falha na cicatrização.
Outro fator importante são os corpos estranhos, como fragmentos vegetais, poeira, partículas ambientais e detritos retidos na superfície ocular ou sob as pálpebras. Além de produzirem abrasão mecânica, esses materiais podem manter inflamação persistente, inocular microrganismos e impedir a reepitelização adequada.
A exposição a produtos químicos também foi citada como causa clínica relevante. A palestrante chamou atenção para situações comuns da rotina, como contato com xampus, sabonetes e jatos de secador direcionados diretamente aos olhos durante o banho, o que pode lesionar a superfície corneana, alterar o filme lacrimal e desencadear ulceração.

Alterações palpebrais e de cílios como fatores perpetuadores
A Dra. Juliana Jorge também destacou a importância das alterações anatômicas que promovem atrito mecânico crônico sobre a córnea. Entre elas, o entrópio foi citado como condição em que a margem palpebral se dobra para dentro, fazendo com que pelos e pele entrem em contato constante com a superfície ocular. Esse atrito contínuo favorece irritação, dor, epífora, inflamação e ulceração corneana.
A distiquíase foi mencionada como outra causa importante, caracterizada pelo crescimento de cílios em localizações anômalas na margem palpebral, direcionando-os em direção à córnea. Dependendo da quantidade, da rigidez e da posição desses cílios, pode haver desde irritação discreta até ulceração persistente.
Já o cílio ectópico foi apresentado como uma alteração ainda mais agressiva, na qual o cílio emerge da conjuntiva palpebral e entra em contato direto com a córnea, produzindo dor intensa e lesão ulcerativa focal. Em todos esses cenários, a mera instituição de colírios sem correção do fator mecânico subjacente tende a resultar em falha terapêutica ou recorrência.
Diagnóstico clínico: recursos simples podem mudar o prognóstico
Um ponto forte da palestra foi a defesa de que o bom diagnóstico oftálmico não depende necessariamente de equipamentos sofisticados e inacessíveis. Pensando na realidade financeira de muitas clínicas, a palestrante destacou que é possível estruturar um atendimento inicial de qualidade com recursos relativamente simples, desde que bem utilizados.
Entre os itens citados, estavam a lanterna com regulação de luz, útil para inspeção da superfície ocular e avaliação inicial; sistemas de magnificação, como lupas; colírio anestésico, importante para reduzir a sensibilidade corneana e permitir exame mais preciso; fluoresceína, preferencialmente em colírio ou em tiras, com vantagem para os strips pela menor chance de contaminação; swab para coleta de material, destinado à cultura e ao antibiograma; e a luz de cobalto, que melhora significativamente a visualização da retenção de fluoresceína e, consequentemente, da extensão da lesão.
A mensagem transmitida foi clara: em lesões de córnea, o diagnóstico rápido e bem executado pode representar a diferença entre um caso resolvido clinicamente e uma progressão para perda estrutural grave, perfuração ou necessidade cirúrgica mais complexa.

Sinais clínicos que devem acender o alerta
Ao longo da apresentação, a palestrante reforçou os principais sinais e sintomas observados em pacientes com ceratites ulcerativas. Entre eles, destacam-se blefaroespasmo, lacrimejamento excessivo, aspecto de “olho fechado”, hiperemia ocular, secreção ocular que pode assumir aspecto purulento, vascularização da córnea e sinais de inflamação intraocular secundária.

Também foi mencionada a possibilidade de uveíte reflexa ou secundária, com presença de hipópio, representando depósito de células inflamatórias na câmara anterior, em contexto séptico ou asséptico. Esses achados devem ser interpretados como marcadores de gravidade, exigindo abordagem mais rápida e criteriosa.
O primeiro passo é definir a profundidade da úlcera
Segundo a palestrante, o sucesso terapêutico começa pela correta identificação do tipo de lesão. O primeiro raciocínio clínico deve ser responder se a úlcera é superficial ou se já houve comprometimento de planos mais profundos da córnea, especialmente o estroma.
Nesse contexto, a fluoresceína assume papel central. Como o epitélio íntegro não retém o corante, a positividade da fluoresceína permite evidenciar defeitos epiteliais e acompanhar a extensão da ulceração. No entanto, a interpretação deve ser cuidadosa em situações avançadas, como nas descemetoceles, em que há coloração da periferia, mas não do centro exposto
Úlceras superficiais: tratamento de suporte e vigilância do tempo de cicatrização
Nas úlceras superficiais, a lesão está restrita à camada epitelial. De acordo com a apresentação, trata-se de lesões que, em condições favoráveis, tendem a cicatrizar em cerca de 5 a 7 dias, e o prolongamento desse tempo deve funcionar como sinal de alerta para investigação de fatores perpetuadores ou defeitos epiteliais crônicos.
Para esses casos, a palestrante recomendou como base terapêutica o uso de colírio antibiótico, como tobramicina ou ofloxacina, no mínimo quatro vezes ao dia, reforçando uma de suas regras de ouro: a frequência mínima deve ser respeitada para que se atinja concentração inibitória adequada sobre possíveis bactérias oportunistas.
Também foi indicado o uso de colírio lubrificante, como hialuronato de sódio, cerca de três vezes ao dia, com o objetivo de melhorar o ambiente de superfície ocular e favorecer a reepitelização. Outro ponto classificado como essencial foi o uso do colar protetor até a alta, já que qualquer autotraumatismo pode reabrir a lesão ou agravar o quadro.
A palestrante foi enfática ao contraindicar o uso de anti-inflamatórios tópicos, especialmente corticosteroides, em úlceras de córnea. Segundo ela, seu emprego pode comprometer a cicatrização, facilitar progressão da lesão e agravar o quadro infeccioso. O uso de anti-inflamatórios por via sistêmica foi citado apenas em situações muito específicas e com extrema cautela.
Defeito epitelial crônico e úlcera indolente exigem abordagem específica
A palestra também abordou o defeito epitelial crônico, frequentemente relacionado à chamada úlcera indolente, situação em que a lesão persiste por falha de adesão epitelial. Nesses casos, a borda da úlcera apresenta aspecto característico, e a fluoresceína pode se insinuar sob o epitélio frouxo, evidenciando a má aderência da margem.
Para esses pacientes, a conduta de suporte inclui colírio anticolagenolítico, como EDTA sódico ou acetilcisteína, quatro vezes ao dia, além do uso de colírio de insulina, também quatro vezes ao dia, conforme protocolos empregados pela palestrante. O colar protetor deve ser mantido até a completa cicatrização.
No entanto, a Dra. Juliana Jorge reforçou que esses casos frequentemente precisam de avaliação especializada em oftalmologia. Procedimentos como desbridamento epitelial podem ser necessários, e a escolha da técnica depende da avaliação clínica. Ela citou abordagens com swab, realizando movimentos controlados ou pequenos pontos/escarificações superficiais sobre a córnea, sempre com critério técnico e considerando a necessidade ou não de anestesia geral de acordo com o perfil do paciente.
Nesses casos, o antibiótico tópico com tobramicina ou ofloxacina continua indicado, inicialmente em frequência mínima de quatro vezes ao dia, podendo ser aumentado para seis vezes ao dia, além da possibilidade de associação com antibiótico oral em situações selecionadas.

Úlceras estromais: urgência clínica e risco de progressão rápida
Ao passar para as úlceras estromais, a palestrante chamou atenção para o fato de que o acometimento da segunda grande camada da córnea muda completamente o nível de urgência do caso. Nesse grupo, as lesões podem ser não progressivas ou progressivas, e essa distinção define a intensidade da abordagem.
Entre as formas progressivas, destacou-se a ceratomalácia, quadro em que a córnea sofre digestão enzimática e adquire aspecto amolecido, representando emergência oftálmica. Outro cenário grave é a descemetocele, em que há exposição da membrana de Descemet. Nesses casos, a fluoresceína cora a periferia da lesão, mas não o centro, sinal clássico de afinamento extremo e risco iminente de perfuração.
A partir desse ponto, o raciocínio clínico passa obrigatoriamente pela decisão entre manejo clínico intensivo e intervenção cirúrgica, sempre com reavaliação frequente.
Cultura e antibiograma orienta a terapia nas úlceras profundas
Um dos principais recados da palestra foi que, em úlceras estromais, sobretudo nas formas progressivas, cultura e antibiograma definem o tratamento. A coleta por swab passa a ter papel estratégico, permitindo direcionar a escolha antimicrobiana e embasar tecnicamente o protocolo instituído.
A recomendação foi que o colírio antibiótico seja utilizado no mínimo seis vezes ao dia, podendo haver necessidade de associações e de formulações fortificadas quando a cultura demonstrar resistência. A palestrante também mencionou a utilização de antibióticos sistêmicos, isolados ou em associação, ressaltando que essas combinações exigem critério farmacológico, inclusive quanto a possíveis antagonismos e ao racional de associação entre diferentes classes.
Além da terapia antimicrobiana, foi indicado o uso de colírios anticolagenolíticos, soro autólogo e, em alguns casos, plasma rico em plaquetas, com foco em modulação do processo de degradação corneana e estímulo à regeneração.

Ceratomalácia e novas abordagens de suporte
Nos casos de malácia corneana, a palestrante comentou o uso do crosslinking como ferramenta auxiliar, destacando seu potencial em ajudar a conter progressão bacteriana e contribuir para estabilização do tecido, além de favorecer a cicatrização em determinadas situações, por auxiliar na estabilização do colágeno corneano e apresentar efeito antimicrobiano adjuvante.
Também chamou atenção para o uso criterioso de medicamentos coadjuvantes, observando, por exemplo, a atropina, uma vez que ela pode reduzir a produção lacrimal e aumentar a viscosidade do filme lacrimal, sendo necessária avaliação individual do paciente. A especialista recomendou portanto a utilização com critério.
Quando a cirurgia entra em cena
Embora a palestra fosse centrada no tratamento clínico, a Dra. Juliana Jorge deixou claro que há situações em que a progressão da úlcera ou a profundidade da lesão impõem abordagem cirúrgica. Entre as técnicas mencionadas estavam procedimentos como flaps conjuntivais e tarsorrafia, utilizados conforme a necessidade de suporte tectônico, proteção da superfície ocular e preservação do globo.
Mesmo nesses casos, ela reforçou que a comunicação com o tutor é decisiva. É necessário explicar com clareza que não existe cicatrização adequada sem colar protetor, além de detalhar riscos, limitações, possíveis complicações e a importância da adesão ao tratamento. Segundo a palestrante, o respaldo técnico por meio de cultura, antibiograma e escolha racional de antibióticos também é fundamental para sustentar a conduta adotada.

Anti-inflamatório tópico é contraindicado
Entre os conceitos que a palestrante reforçou com maior ênfase esteve a contraindicação do anti-inflamatório tópico em ceratites ulcerativas. O alerta se estendeu especialmente ao uso de corticoides, mas também incluiu a preocupação com fármacos que possam interferir na dinâmica inflamatória e enzimática da córnea.
Segundo a apresentação, esse tipo de medicação pode favorecer a liberação ou perpetuação de metaloproteinases, enzimas intimamente relacionadas à degradação corneana e à piora de quadros ulcerativos, especialmente nas formas estromais progressivas.
Casos graves pioram rápido, e braquicefálicos exigem ainda mais atenção
Na parte final, a palestrante sintetizou alguns princípios práticos essenciais. O primeiro deles é que as ceratites ulcerativas podem evoluir e se agravar rapidamente, exigindo senso de urgência proporcional à gravidade do caso. Quanto mais profunda a lesão e maior o comprometimento da córnea, mais rápido deve ser o encaminhamento ou a intensificação da terapia.
Ela também destacou que animais braquicefálicos tendem a apresentar pior evolução e progressão mais rápida, em razão de fatores anatômicos e funcionais como maior exposição ocular, alterações de filme lacrimal, predisposição a traumas e maior ocorrência de anormalidades palpebrais.

Por fim, lembrou novamente que o clínico deve desconfiar de diagnósticos simplificados de conjuntivite em cães, já que conjuntivites primárias são raras nessa espécie e muitas vezes mascaram olho seco, doença imunomediada ou patologia corneana em progressão.
Quatro pontos-chave para o sucesso clínico em ceratites ulcerativas a cães e gatos
Como síntese prática da palestra, a Dra. Juliana Jorge destacou quatro pontos-chave que devem orientar o manejo das ceratites ulcerativas em cães e gatos:
- Colírio antibiótico no mínimo quatro vezes ao dia, respeitando a frequência necessária para atingir concentração inibitória mínima.
- Não utilizar anti-inflamatórios tópicos em úlceras corneanas.
- O colar protetor deve ser sempre utilizado até alta clínica e cicatrização completa.
- Mais de um antibiótico pode ser necessário, desde que a associação seja racional e compatível com o perfil do caso.
A palestra reforçou que o sucesso no tratamento clínico das ceratites ulcerativas não depende apenas da prescrição de colírios, mas da combinação entre diagnóstico precoce, classificação correta da profundidade da lesão, controle dos fatores perpetuadores, uso rigoroso da terapia tópica, monitoramento frequente e comunicação adequada com o tutor. Em oftalmologia veterinária, especialmente nas lesões corneanas, tempo e precisão de conduta seguem sendo determinantes para preservar visão, integridade ocular e qualidade de vida.
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