Bacteriófagos na avicultura: uma estratégia biológica para o controle de patógenos e redução do uso de antibióticos
A produção avícola moderna tem buscado soluções que conciliam eficiência produtiva,
segurança sanitária e sustentabilidade. Nesse contexto, os bacteriófagos surgem como uma
ferramenta biológica relevante, com potencial para atuar no controle de patógenos de
importância zootécnica e sanitária, ao mesmo tempo em que contribuem para a redução do
uso de antibióticos na criação animal.
Os bacteriófagos, ou fagos, são vírus naturais que infectam exclusivamente bactérias,
apresentando elevada especificidade por seus hospedeiros. Estruturalmente, são
constituídos por material genético (DNA ou RNA) envolto por um capsídeo proteico,
podendo apresentar cauda contrátil ou não, de acordo com sua classificação morfológica.
Na produção animal, os fagos de maior interesse são os fagos líticos, capazes de
adsorver-se à célula bacteriana, injetar seu material genético, multiplicar-se no interior da
bactéria e provocar sua lise, liberando novas partículas virais no ambiente.
Essa alta especificidade representa uma das principais vantagens dos bacteriófagos em
relação aos antimicrobianos convencionais. Enquanto antibióticos de amplo espectro atuam
de forma indiscriminada sobre diferentes grupos bacterianos, incluindo microrganismos
benéficos da microbiota intestinal e ambiental, os fagos atuam de forma direcionada sobre
espécies ou sorovares específicos, como Salmonella spp. e Escherichia coli. Dessa forma,
o uso de bacteriófagos permite a eliminação de bactérias patogênicas sem comprometer a
microbiota benéfica, mantendo o equilíbrio do microbioma.
Histórico de utilização dos bacteriófagos
O uso de bacteriófagos não é uma tecnologia recente. Sua descoberta ocorreu no início do
século XX, a partir dos trabalhos de Félix d’Hérelle, que já descrevia o potencial terapêutico
desses vírus no controle de infecções bacterianas. Com a consolidação dos antibióticos a
partir da década de 1940, a fagoterapia foi gradualmente abandonada no Ocidente,
permanecendo restrita a alguns países do Leste Europeu.
Nas últimas décadas, contudo, o aumento da resistência antimicrobiana e as restrições
regulatórias ao uso de antibióticos na produção animal impulsionaram um renovado
interesse científico e tecnológico nos bacteriófagos como ferramentas de controle biológico.
Na avicultura moderna, os fagos passaram a ser investigados e aplicados principalmente no
controle de patógenos entéricos de importância sanitária e zootécnica, com destaque para
Salmonella spp., Campylobacter spp. e E. coli patogênica aviária.
Principais vantagens do uso de bacteriófagos na avicultura
O tratamento com bacteriófagos apresenta vantagens biológicas, sanitárias, zootécnicas e
regulatórias que o posicionam como uma alternativa promissora aos antibióticos na
produção avícola contemporânea. Essas vantagens estão diretamente relacionadas às
características intrínsecas dos fagos, ao seu mecanismo de ação altamente específico e à
sua versatilidade de aplicação ao longo da cadeia produtiva.
Alta especificidade e preservação da microbiota
Uma das principais vantagens do uso de bacteriófagos é sua elevada especificidade em
relação às bactérias hospedeiras. Diferentemente dos antibióticos de amplo espectro, os
fagos atuam de forma direcionada sobre espécies, sorovares ou cepas específicas, como
Salmonella enteritidis, Salmonella typhimurium e Salmonella gallinarum. Essa seletividade
permite eliminar o patógeno-alvo sem comprometer a microbiota intestinal benéfica das
aves, essencial para a digestão, a modulação imunológica e o desempenho zootécnico.
Redução da resistência antimicrobiana
Outra vantagem relevante do tratamento com bacteriófagos é sua contribuição para a
redução da pressão seletiva associada ao desenvolvimento de resistência antimicrobiana.
Enquanto o uso de antibióticos favorece a seleção de bactérias resistentes, os fagos
apresentam um mecanismo de ação distinto, baseado na infecção viral e lise bacteriana,
não compartilhando alvos moleculares com antibióticos. Além disso, o uso de fagos não
gera resistência antimicrobiana cruzada, o que representa um diferencial importante em
sistemas produtivos que buscam reduzir o uso de antimicrobianos.
Atuação sobre biofilmes bacterianos
A capacidade de atuar sobre biofilmes bacterianos representa uma vantagem estratégica do
uso de bacteriófagos. Biofilmes formados por Salmonella spp. em linhas de água, cama
aviária, comedouros e superfícies estruturais do galpão conferem elevada tolerância a
antibióticos e desinfetantes químicos, dificultando a erradicação do patógeno mesmo após
procedimentos de limpeza e vazio sanitário. Os fagos são capazes de atingir bactérias
protegidas pela matriz do biofilme, promovendo a redução da biomassa bacteriana e
contribuindo para a quebra de ciclos persistentes de reinfecção.
Segurança e impacto produtivo
Do ponto de vista de biossegurança, os bacteriófagos apresentam perfil altamente
favorável. São entidades biológicas naturais, amplamente distribuídas no ambiente, no solo,
na água e no trato gastrointestinal de animais e humanos. Sua especificidade bacteriana
garante que não infectem células eucarióticas, não apresentando risco direto para as aves,
para os trabalhadores rurais ou para os consumidores.
Os produtos à base de fagos são descritos como seguros, não tóxicos, não transgênicos e
biodegradáveis, não deixando resíduos em carne ou ovos e não exigindo período de
carência. Em relação ao desempenho zootécnico, o uso de bacteriófagos não compromete
índices produtivos como conversão alimentar, ganho de peso e mortalidade, sendo
compatível com sistemas produtivos eficientes.
Versatilidade de aplicação ao longo da cadeia produtiva
O uso de bacteriófagos apresenta ainda a vantagem de poder ser aplicado em múltiplos
pontos da cadeia de produção avícola. As aplicações descritas incluem o período in ovo,
nascedouros, aspersão em caixas de transporte, aplicação na cama de criação, linhas de
água e tratamento de carcaças no abatedouro. Essa versatilidade permite a construção de
uma estratégia de controle multifásica, baseada na criação de barreiras biológicas
sucessivas contra a disseminação de patógenos.
Sustentabilidade e alinhamento regulatório
Por fim, o uso de bacteriófagos está alinhado às tendências regulatórias e de
sustentabilidade da produção animal moderna. A redução do uso de antibióticos, a ausência
de resíduos e a segurança alimentar tornam essa tecnologia compatível com programas de
produção responsável, bem-estar animal e acesso a mercados internacionais. Além disso, a
aplicação de fagos pode ser incorporada aos sistemas existentes de manejo e
biosseguridade, favorecendo sua adoção em diferentes escalas de produção.
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