Por Digivets

Março 11, 2026

Durante painel de nefrologia no Animal Health Expo 2026, o Dr. Fábio Teixeira discutiu como a nutrição precoce, o monitoramento da massa muscular e a oferta de uma dieta completa podem influenciar a evolução clínica e o prognóstico de cães e gatos com lesão renal aguda.

Durante painel de nefrologia no Animal Health Expo 2026, o Dr. Fábio Teixeira discutiu como a nutrição precoce, o monitoramento da massa muscular e a oferta de uma dieta completa podem influenciar a evolução clínica e o prognóstico de cães e gatos com lesão renal aguda.

Durante o painel de nefrologia realizado no Animal Health Expo 2026, o médico-veterinário Dr. Fábio Teixeira apresentou a palestra “Alimento como terapia: o que, quando e como alimentar o paciente urêmico”, trazendo uma discussão aprofundada sobre o papel da nutrição no manejo clínico de cães e gatos com lesão renal aguda (LRA). A apresentação destacou que, longe de ser uma medida apenas de suporte, a alimentação deve ser compreendida como parte integrante da estratégia terapêutica desses pacientes, especialmente no contexto do intensivismo veterinário.

O Dr. Fábio Teixeira é médico-veterinário, mestre e doutor, com residência, pós-doutorado e titulação de especialista em nutrição e nutrologia de cães e gatos. Graduado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ/USP), construiu sua trajetória acadêmica e profissional com forte atuação em nutrição clínica, clínica médica e nutrologia de pequenos animais. Atualmente, atua como professor orientador do programa de pós-graduação stricto sensu em Clínica Veterinária da FMVZ/USP, coordenador do curso de pós-graduação lato sensu em Nutrição e Nutrologia de Cães e Gatos da Anclivepa-SP, além de diretor científico do Laboratório Stonewell. Sua experiência concentra-se principalmente em nutrologia, endocrinologia e gastroenterologia de cães e gatos.

Lesão renal aguda e o estado hipermetabólico do paciente urêmico

Ao introduzir o tema, o palestrante contextualizou a lesão renal aguda a partir do que já se observa na medicina humana, destacando que esses pacientes evoluem com catabolismo proteico aumentado, redução da capacidade oxidativa e estado pró-inflamatório sistêmico. Segundo ele, na medicina veterinária esse processo pode ser ainda mais expressivo, o que  reforça a necessidade de olhar para a nutrição não como elemento secundário, mas como componente central do cuidado clínico.

A partir dessa base, Dr. Teixeira organizou sua abordagem em dois grandes eixos: o intensivismo, relacionado ao paciente hospitalizado e ao impacto da internação sobre o metabolismo, e a própria lesão renal aguda, entendida como condição hipermetabólica capaz de desencadear profundas alterações nutricionais e musculares.

“Sempre nutrir”: o intestino como órgão-chave no prognóstico

No contexto do paciente intensivo, um dos principais conceitos defendidos pelo palestrante foi a necessidade de “sempre nutrir”. A justificativa apresentada foi fisiopatológica: em estados de jejum prolongado ou ingestão inadequada, instala-se um quadro de desnutrição calórico-proteica, com repercussões diretas sobre a integridade do trato gastrointestinal.

Segundo o especialista, a ausência de alimentação favorece atrofia intestinal, aumento da permeabilidade da mucosa e maior risco de translocação bacteriana. Esse processo é particularmente relevante em pacientes críticos, já que a sepse figura entre os principais fatores associados ao óbito em animais hospitalizados. Além disso, o jejum reduz o estímulo luminal necessário para a manutenção da motilidade gastrointestinal, o que contribui para hipomotilidade e pior funcionamento do trato digestivo.

Outro ponto enfatizado foi o papel imunológico do intestino. O palestrante relembrou que o trato gastrointestinal abriga estruturas fundamentais para a resposta imune, como as placas de Peyer, e que o comprometimento da saúde intestinal repercute diretamente sobre a inflamação sistêmica e a imunocompetência do paciente. Nesse contexto, resumiu a ideia central da palestra em uma frase de forte apelo clínico:

“Independente do diagnóstico, comer melhora o prognóstico.”

Jejum não interrompe a produção de compostos nitrogenados

Ao discutir um dos equívocos mais comuns no manejo do paciente urêmico, o Dr. Teixeira destacou que a falta de alimentação não interrompe a produção de compostos nitrogenados. Mesmo em jejum, o organismo continua gerando amônia e outros metabólitos nitrogenados a partir do próprio catabolismo endógeno.

Ele relembrou que a amônia circulante é encaminhada ao fígado, onde é convertida em ureia e, posteriormente, deveria ser excretada pelos rins — o que se torna problemático em pacientes com lesão renal aguda. No caso dos animais, mencionou ainda a existência de vias adicionais de conversão da amônia, com participação da glutamina sintetase, ampliando a complexidade metabólica do quadro.

Nesse raciocínio, o trato gastrointestinal volta a ganhar destaque. O palestrante abordou o metabolismo da glutamina, aminoácido amplamente utilizado pelo intestino delgado e que, ao ser metabolizado, também contribui para a formação de compostos nitrogenados. Assim, o jejum não representa uma estratégia eficaz para “poupar” o paciente urêmico; ao contrário, pode agravar o catabolismo e perpetuar a produção endógena de resíduos nitrogenados.

Catabolismo muscular, perda de massa magra e piora do prognóstico

Outro eixo central da apresentação foi o papel do músculo esquelético na fisiopatologia da LRA. O Dr. Teixeira explicou que, em situações de jejum e hipermetabolismo, o músculo passa a atuar como fornecedor de substratos para a produção energética, liberando aminoácidos como a alanina, que é encaminhada ao fígado para gliconeogênese e manutenção do aporte energético sistêmico.

Esse mecanismo, embora compensatório, acelera a perda de massa muscular e agrava a desnutrição proteica. O palestrante chamou atenção para o fato de que a associação entre lesão renal aguda e desnutrição forma um círculo vicioso: o hipermetabolismo, a azotemia, as alterações eletrolíticas e ácido-base, as alterações gastrointestinais e a perda de nutrientes relacionada à doença, ao tratamento e à baixa ingestão alimentar convergem para o desgaste muscular progressivo.

As consequências clínicas desse quadro incluem piora da síndrome urêmica, maior risco de infecções, prejuízo à resposta imunológica, atraso na cicatrização, redução do vigor, piora da qualidade de vida e, de maneira geral, agravamento do prognóstico.

Monitoramento nutricional deve fazer parte da rotina hospitalar

Um ponto prático muito relevante levantado pelo palestrante foi a crítica à rotina hospitalar que, muitas vezes, limita a pesagem do paciente ao momento da admissão. Segundo ele, em casos de lesão renal aguda, isso é insuficiente.

Um ponto prático muito relevante levantado pelo palestrante foi a crítica à rotina hospitalar que, muitas vezes, limita a pesagem do paciente ao momento da admissão. Segundo ele, em casos de lesão renal aguda, isso é insuficiente.

O Dr. Teixeira defendeu que o peso corporal deve ser acompanhado de forma seriada durante toda a internação e lembrou que, nesses pacientes, a avaliação deve ser ainda mais cuidadosa devido às oscilações relacionadas ao estado de hidratação e ao risco de retenção hídrica. Em sua abordagem, o peso deve ser monitorado diariamente, e em pacientes com LRA, idealmente duas vezes ao dia, sempre em conjunto com o monitoramento hídrico.

Além disso, reforçou a importância do escore de massa muscular como ferramenta clínica contínua. Mais do que registrar o peso absoluto, é necessário acompanhar a preservação ou perda de tecido muscular ao longo da hospitalização, já que essa variável está diretamente relacionada ao estado nutricional e à evolução do paciente.

O objetivo não é apenas alimentar, mas evitar desnutrição calórico-proteica

Ao entrar no manejo nutricional propriamente dito, o palestrante destacou que o grande objetivo é evitar a desnutrição calórico-proteica e reduzir o catabolismo muscular. Como o músculo passa a ser utilizado como fonte de energia, torna-se essencial oferecer substrato energético adequado, preservando ao máximo a massa magra. Para ilustrar, apresentou um exemplo de cálculo de necessidade energética em repouso (NER), demonstrando que um animal de 5 kg teria uma necessidade aproximada de 234 kcal/dia, o que, em um alimento hipercalórico com densidade de 4,2 kcal/g, corresponderia a cerca de 55 g/dia.

Entretanto, ele ressaltou que atingir esse consumo voluntariamente nem sempre é possível em pacientes graves, anoréxicos, nauseados ou com recusa alimentar. Nesses casos, o uso de sondas alimentares passa a ser ferramenta importante do tratamento, incluindo vias nasoesofágicas ou esofagojejunais, esta última especialmente útil quando se deseja minimizar a passagem pelo estômago e reduzir intercorrências como náusea, vômito e desconforto.

Maior exigência proteica e ausência de indicação para restrição na LRA

Um dos pontos mais relevantes da palestra foi a diferenciação clara entre lesão renal aguda e doença renal crônica do ponto de vista dietético. Segundo o palestrante, embora a restrição proteica seja tema clássico no manejo da doença renal crônica, esse raciocínio não deve ser automaticamente transferido para a LRA.

Ele destacou que, mesmo com ingestão energética-alvo de cerca de 1,3 vezes a NER, observou-se que pacientes com lesão renal aguda podem apresentar necessidade proteica aumentada. Em exemplo apresentado, a exigência poderia chegar a aproximadamente 83 g/dia em determinado contexto clínico, reforçando que o aporte proteico precisa ser compatível com o estado hipercatabólico do paciente.

Além disso, mencionou diretrizes e consensos recentes da medicina veterinária que apontam para a necessidade de avaliar 100% dos pacientes até 48 horas após a internação, evitar alimentação forçada, pela ineficiência e pelo risco de gerar aversão alimentar, e considerar que, ao menos em cães, a necessidade energética em LRA pode ser superior à NER convencional.

O dado mais importante, no entanto, foi a observação de que a ingestão de proteína e fósforo não levou, necessariamente, à piora da azotemia ou da fosfatemia nos estudos discutidos. Isso sustenta a conclusão de que não há recomendação atual para restringir proteína na lesão renal aguda, o que representa uma mudança importante de raciocínio para a prática clínica.

Como deve ser a dieta do paciente com lesão renal aguda?

Ao responder à pergunta central da palestra: o que, quando e como alimentar o paciente urêmico – o especialista defendeu que a escolha dietética deve partir de um princípio básico: oferecer uma alimentação completa, capaz de sustentar o organismo durante a fase crítica sem agravar o quadro metabólico.

Fósforo

Embora o controle do fósforo seja importante, o palestrante destacou que a fosfatemia não deve ser o foco inicial absoluto. Em primeiro lugar, é preciso garantir que o animal esteja de fato comendo. Quando necessário, o manejo da hiperfosfatemia pode incluir o uso de quelantes de fósforo, mas sempre acompanhado da avaliação da ingestão real do paciente.

Gordura

A gordura foi discutida como fonte energética útil, mas que exige avaliação clínica individualizada. Dr. Teixeira lembrou que dietas mais gordurosas podem reduzir a motilidade gastrointestinal e retardar o esvaziamento gástrico, o que pode ser indesejável em pacientes com comprometimento do trato digestivo. Por isso, o uso de gordura deve ser ponderado em animais com dificuldade de motilidade gastrointestinal, hiperlipidemia, linfangiectasia e, em determinados contextos, pancreatite.

Cálcio e vitamina D

No caso do eixo cálcio-vitamina D, a mensagem principal foi que o manejo inicial não deve buscar grandes intervenções corretivas, mas sim evitar hipocalcemia clinicamente relevante. A vitamina D foi apontada como elemento importante por sua relação com a homeostase do cálcio, e o palestrante chamou atenção para evidências de que cães com lesão renal aguda podem apresentar menores concentrações séricas de metabólitos de vitamina D em comparação com cães saudáveis e até mesmo com cães portadores de doença renal crônica.

As causas exatas desse fenômeno ainda não estão completamente elucidadas. Entre as hipóteses, levantou-se a possibilidade de influência da ingestão inadequada, do processo inflamatório sistêmico e de perdas relacionadas ao próprio comprometimento renal.

Antioxidantes e estresse oxidativo: campo promissor, mas ainda inconclusivo

Outro tema abordado foi o papel dos antioxidantes. Segundo o palestrante, animais com lesão renal aguda apresentam aumento da produção de radicais livres, o que contribui para o estresse oxidativo e pode participar da progressão da lesão tecidual.

Foram mencionados estudos com suplementação de vitamina E em gatos, sem resultados clinicamente expressivos, e trabalhos em cães submetidos a transplante renal, nos quais a avaliação de vitamina C diretamente na artéria renal mostrou redução de marcadores de estresse oxidativo. Também foi citada a suplementação combinada de vitamina C, vitamina E e betacaroteno, com a observação de aumento da capacidade antioxidante e redução do estresse oxidativo em gatos.

Apesar desses achados, a conclusão foi de cautela: ainda existem poucos estudos robustos na medicina veterinária, e a evidência disponível permanece limitada, especialmente quando se busca extrapolar esses dados para recomendações amplas na rotina clínica.

Ômega 3: prevenção ou tratamento?

A suplementação com ômega 3 também foi discutida sob uma perspectiva crítica. O palestrante mencionou que, em estudo avaliando, a suplementação prévia ao desenvolvimento da doença renal mostrou benefício em cães, sugerindo um possível papel preventivo. Por outro lado, esse efeito não foi observado com a mesma clareza em situações de lesão renal aguda já estabelecida.

Assim, mais do que uma recomendação direta, o tema foi apresentado como uma reflexão relevante sobre o potencial do ômega 3 como modulador metabólico e inflamatório em contextos renais, especialmente na prevenção ou no suporte de longo prazo.

Diálise, perdas proteicas e intensificação do estado catabólico

Na parte final da apresentação, Dr. Teixeira abordou a situação de pacientes submetidos à diálise, destacando que esse grupo pode apresentar deficiência proteica adicional em função das perdas de aminoácidos durante o procedimento. Em cães, foi citada perda aproximada de 0,12 g/kg de peso corporal em aminoácidos; em humanos, a necessidade pode aumentar em até 30%, com perdas variando entre 0,09 e 0,17 g/kg de peso corporal.

Esses dados reforçam que a diálise, embora fundamental em muitos casos, pode intensificar o processo inflamatório, oxidativo e hipermetabólico, tornando o suporte nutricional ainda mais relevante.

Fluxograma final reforça abordagem prática e objetiva

Como síntese da palestra, o especialista apresentou um fluxograma simplificado para o manejo dietético da lesão renal aguda, com a seguinte lógica: garantir que o animal coma, monitorar o peso, monitorar o escore de massa muscular, não restringir proteína, priorizar baixo fósforo e oferecer uma dieta completa.

A mensagem final da apresentação foi clara: no paciente com lesão renal aguda, o manejo nutricional não deve ser pautado pelo receio automático de agravar azotemia ou fosfatemia por meio da alimentação. O foco inicial deve estar em preservar a ingestão, reduzir o catabolismo, proteger a integridade intestinal, monitorar a massa muscular e oferecer suporte nutricional compatível com o estado hipermetabólico do paciente.

A palestra reforçou, portanto, que a nutrição deve ser entendida como uma ferramenta terapêutica ativa dentro da nefrologia veterinária, com impacto direto sobre a morbidade, a recuperação clínica e o prognóstico de cães e gatos com lesão renal aguda.

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